Tema da semana: 'Sinais'

sexta-feira, outubro 06, 2006

Tempo curto

Maria pegou uma velha fotografia de sua mãe em seu baú já empoeirado pelo tempo. Muitos álbuns e fotografias misturadas e fora de ordem cronológica. Crianças misturadas com imagens de paisagens rosadas danificadas pelo oxigênio. Olhava as fotos como se estivesse revivendo cada instante. O passado é sempre melhor. “Já passou. Não tem mais jeito”, pensava Maria. Lembrou-se dos tempos de escola, das amigas e do primeiro namorado. Dos bailes, do apertado cinema de sua cidade e de seus pais, tão presentes em sua vida.

A fotografia de Dona Ivone mostrava uma senhora bonita e bem maquiada. A tonalidade sépia da imagem denunciava o quanto era antigo. Tinha os olhos da mãe. Olhos sábios e atentos. Olhar honesto e profundo. Maria sentia a determinação de sua mãe só de olhar para o papel. A procura pelo instantâneo tinha um motivo: Maria queria pintar o rosto da mãe em uma tela. Testar seu novo hobby.

Modelo escolhido, tintas, ambiente, tela grande, música instrumental ao fundo e um incenso para acompanhar. Maria começa desenhando os contornos do rosto. Depois os cabelos, os olhos, o nariz e a boca. Por um instante pensa estar fazendo seu auto-retrato. Para e olha o esboço. Não gosta. Apaga tudo e começa novamente. Logo as obrigações do lar a convocam. O filho está com fome e o marido vai chegar do trabalho.

Guarda a tela com um outro não muito diferente esboço e vai cuidar dos afazeres domésticos. Como o presente era para o aniversário de 70 anos de sua mãe em outubro e ainda estava em maio, julgou não ser necessário tanta pressa em terminá-lo.

A vida agitada de dona de casa aliada aos problemas do filho na escola, as contas que sempre chegam todos os meses, os cortes nos gastos familiares fizeram com que Maria se envolvesse demais com problemas rotineiros deixando suas vontades e sonhos em segundo plano. O quadro de Dona Ivone recebia algumas pinceladas de vez em quando. Maria resolveu deixar pra lá.

Vinte anos depois Maria se encontra à beira de seus 60 anos. Incumbida de mostrar fotos antigas para sua nora, ela vai ao seu quartinho da bagunça onde ficam guardados seus arquivos de fotografias. Ao ver a tela inacabada de sua mãe, chora aos prantos. “Como pude ser tão negligente? E agora? Minha mãe nem está mais aqui conosco. Quanto tempo perdido e nem ao menos consegui acabar uma homenagem à minha querida mãe”. Ainda se debulhando em lágrimas pegou seu antigo pincel ,endurecido pelo tempo, e recomeçou seu trabalho que nunca deveria ter sido interrompido.

Maria agora sabe do valor de uma amizade. De uma família. Não só pela tela, mas pelo significado disso tudo. A duração de nossas vidas é determinada pelo nosso passado e nossas atitudes. Cada abraço e cada olhar trocado com nossos filhos, esposas, maridos, irmãos e pais são únicos e eternos. São inesquecíveis. É o que fica.

Por Wallace Feitosa