Tema da semana: 'Sinais'

segunda-feira, outubro 09, 2006

A Selvagem da Motocicletinha*

O ato de chegar à janela, coisa corriqueira na vida das "tias solteiras" das pequenas cidades (de Minas, pelo menos), às vezes oferece belas surpresas para quem se debruça no parapeito e olha para fora.

Eu, especificamente, olhei para baixo. E lá estava minha pequena vizinha, de uns quatro anos de idade, se muito, brincando com seu velocípede. Cabelos lisinhos com franjinha, num caprichado corte Chanel, camiseta cor-de-rosa e bermudinha jeans. Sentada, no topo da rampa do pátio do edifício, em sua "motoquinha" femininamente rosa-bebê.

A danadinha, com coragem inversamente proporcional ao tamanho, postava-se no topo da rampa, empurrava o "veículo" apoiando os pés no chão e disparava rampa abaixo, gritando. Subia novamente, agora com seu meio de transporte nas costas, e repetia o feito. Pensam que já é esporte radical demais para uma menininha miudinha? Que nada... Chegando ao final da descida, a espevitada ainda cismava de virar bruscamente a motoquinha numa freada digna de motociclistas experientes. Acho que estava treinando para dar cavalos-de-pau quando chegasse à longínqua maioridade.

Um detalhe: como criaturinha que vem ao mundo com charme inato e que, mais do que tudo, sabe do próprio encanto, a menininha gritava para que todos os que estavam no pátio viessem ver seu espetáculo. O nome daquela fofura de pessoa mirim? Não sei. Mas vou tentar descobrir, pois aposto que será famosa um dia.


***

* Publiquei o texto acima originalmente em 25 de setembro de 2003, em um blog que eu costumava ter. Republico aqui porque, mais do que o prazer de escrever sobre crianças, essas criaturas que acho encantadoras, foi grande meu prazer em lembrar o texto. E, assim, foi grande minha vontade de compartilhar com quem quer que leia este post a história da Selvagem da Motocicletinha.

A menininha em questão já está "uma moça". Os anos passam rápido quando olhamos para o tempo a partir do filtro de uma vida infantil. Ela está diferente, com certeza. Mas o charme é o mesmo dos antiqüíssimos três anos atrás. E eu espero que isso não mude nunca. Conheci sua mãe, comprei dela algumas bijuterias... O que psso dizer dela? Gente boa pra caramba!

Ah, a bárbara Selvagem da Motocicletinha chama-se Bárbara. É irmã do pequenino Breno e filha da Andréia. O pai é policial militar. Esqueci seu nome. Ao lado desse esquecimento, estou aqui com o prazer da lembrança daquela época e com o susto de ver a menininha tão maior, tão diferente.

***

P.S.: eu tinha um texto manuscrito sobre o tema "Retrato". Precisava de organização, precisava ser de fato escrito, era preciso sair das idéias e estruturar para valer o escrito. Entretanto, minha idade tão superior à da Bárbara acabou me presenteando com horríveis dores nas costas, seguidas, dias depois, por uma dor forte no pulso. Não sei o que aconteceu, mas foi como um torcicolo na coluna. Do jeito que veio foi embora. Ainda bem. Talvez um dia eu transforme as idéias manuscritas em algo com estrutura. Estava gostoso pensar, escrever, inventar a história do retrato. Vamos ver se um dia fica pronto; e mais: vamos ver se um dia publico em algum lugar.

Por Mônica Ribeiro