Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, outubro 05, 2006

O retrato de Geralda

-- Hoje é dia de visita, ela deve estar chegando aí. Ela nunca falta, não.

No meio do salão do Asilo, João comenta sobre Geralda com os estudantes que vieram ouvir o maior mestre folião que a pequena cidade já teve. Alunos do curso de Turismo foram orientados pelo professor a estudarem sobre a cultura popular. Nada melhor do que entrevistar aquele senhor negro, de cabelos impressionantemente pretos e olhar calmo, sereno. João fala das dificuldades que as folias de reis enfrentavam para ir às ruas, ano a ano, anunciar o nascimento de Jesus. “A gente era chamado de vagabundo, meninos. Hoje eu fico até alegre de vocês virem aqui aprender sobre folia. Os do dinheiro achavam que era falta do que fazer”.
Durante a conversa, João saca da bolsa um retrato antigo. É Geralda moça. Uma foto feita no Rio, quando eles moraram por lá. Não demorou para que se envolvessem com uma escola de samba. Viraram mestre-sala e porta-bandeira. No Rio, as escolas sofriam com os mesmos problemas das folias do interior. “A polícia muitas vezes inventava motivos para a escola não sair”. O preconceito vira tema da conversa e alguém pergunta se a coisa melhorou. “É claro que melhorou. Se piorasse, eu estaria preso por ser sambista, folião”, comentou, com o sorriso generoso emoldurando o seu olhar.
Um aluno pergunta se o fato de a entrevista fazer parte de um trabalho para a faculdade não mostraria que o preconceito era um problema superado. “Depende, menino. Acho sim que o professor reconhece a importância da nossa cultura. Muitos de vocês concordam. Eu vejo, eu sinto: os olhos chegam a brilhar. Mas têm muitos de vocês que acham isso uma perda de tempo e outros que me olham como se estivessem no zoológico conhecendo um animal diferente”. A sinceridade de João lava a alma de uns e funciona como um soco no estômago de outros. Aos 82 anos, o velho folião se permite não mentir, não contemporizar, não fazer média.
De novo ele pega o retrato. E alisa o rosto de Geralda. A companheira Geralda, capaz de virar a madrugada costurando as fardas da folia. Ou madrugar para ir com ele à lavoura. Ah, e as noites de samba e amor até mais tarde? Impossível olhar para trás, falar da vida sem se lembrar de Geralda. Cadê Geralda? “Ah, ela deve estar chegando. Ela nunca falta, não. Hoje é domingo, não é? Então, dia de visita. Vem aí meu grande amor. Ninguém me perguntou, mas é por isso que eu tô de branco”, comenta João dentro do terno que usava só em ocasiões especiais, com direito a chapéu panamá e lenço no bolso.
Quem sabe da verdade, se emociona. Geralda não virá. Como não vem há dois anos. Morreu. Derrame, como boa parte da família. O Mal de Alzeimer que consome a saúde de João não lhe tira da memória os anos de ouro mas lhe impede de lembrar coisas do cotidiano mais recente.
Domingo que vem ele vai pedir ao “moço” para lhe colocar o terno branco e o chapéu panamá para esperar Geralda. “Hoje é dia de visita, ela deve estar chegando aí. Ela nunca falta, não”.
Por João Henrique , livremente inspirado em Chico Buarque de Holanda.