Tema da semana: 'Sinais'

sábado, outubro 07, 2006

Auto-retrato

No último dia 1º de outubro, o Brasil teve a oportunidade de mudar de cara e, principalmente, de atitude. Da mesma maneira como ocorreu nas eleições presidenciais de 2002, a população parecia sedenta por mudanças por conta da frustração com os fatos políticos acontecidos desde o fim do ano passado. Nos dias que antecederam a votação, até comentei com alguns amigos sobre a possibilidade de renovação, tanto no congresso, quanto nas Assembléias Legislativas, justamente por esse espírito de indignação que pairava. Doce ilusão.

No início da apuração dos votos, eu estava na sede do Tribunal Regional Eleitoral de Goiás. De cara, tomei um susto: o candidato à reeleição, que estava na luta para ao menos chegar ao segundo turno, na disputa ao governo do Estado, estava dez pontos na frente do principal adversário, que liderou as pesquisas com folga durante, praticamente, toda a campanha. Resultado: o vice desconhecido, que tentava dar continuidade ao governo de oito anos, que, neste pleito, ainda se intitula “Tempo Novo” levou a melhor. E por erros crassos – que não vou comentar agora – do partido que seria vencedor, as eleições em Goiás estão praticamente definidas e o “governo do Tempo Novo” deve permanecer os mesmos dezesseis anos, que foram motivos de crítica por tanto tempo. Detalhe, não se sabe qual das duas opções para o segundo turno pode ser mais danosa.

Regionalismo à parte, em todos os cantos do país, esteve evidente o quão frágil é a consciência dos eleitores em relação à escolha dos candidatos que vão nos representar nesta ditadura da maioria. Infelizmente, as surpresas não ficaram apenas em nível estadual, com uma renovação de apenas 48% dos deputados goianos. Quem tem o mínimo de memória e civismo se sentiu extremamente ofendido ao conhecer o deputado estadual mais votado do País: Paulo Maluf, que deve estar dando gostosas risadas, ainda hoje, com seus mais de 738.000 votos apurados nas urnas paulistas.
E o que dizer do senador eleito por Alagoas? “Após quase 14 anos de sua renúncia à Presidência da República, depois da aprovação de um processo de impeachment, o ex-presidente Fernando Collor de Mello (PRTB), 57, volta à cena em Brasília, agora como senador”, informou a Folha Online. É claro que temos uma série de casos revoltantes, como os mensaleiros e sanguessugas que foram reeleitos.
E é com imenso pesar que traçamos esse auto-retrato do Brasil. Um país cujo povo não entende a dimensão de um voto e o entrega por muito pouco: seja por uns litros de gasolina ou por outros favores quaisquer. Só nos resta esperar que ao menos nossos bisnetos possam experimentar a vida em um Brasil com uma democracia consistente e, principalmente, consciente.
Por Aline Tomaz