Prima Vera
Parecia pessoa pouco autêntica, muito na onda das tribos. Nada. Vera era primordialmente verdadeira. O primeiro vero ser que conheci. Buscava realmente o tal lance do “qual é a minha?” Se achava não sei. Se um dia achou, sei menos ainda. Duvido. E aposto que ela, da mesma forma, também não acreditou no encontro de si mesma. Mas era para valer a procura. Dizia, quando a chamavam de "a daquela tribo que usa preto": eu sou assim porque quero ser, porra! Não tô imitando ninguém! Gente escrota que se mete na minha vida!
Eu fico pensando: aqueles que são autênticos são bandeirosos. E Vera aprontava as suas. Por mais durona e descrente do mundo que quisesse parecer, era possível flagrá-la emocionada com uma dessas grandes coisas pequenas da vida. Certa vez a vi chorando ao ver um comercial de TV, daqueles com crianças espertas e sensíveis e mensagens edificantes. Diante da acusação de emoção fácil, soltou: porra de merda de TPM do cacete que me faz dar uma de mulherzinha boba! Que bosta! Ah, mas que chorou, chorou. E que negou, negou. Eu vi tudo isso, e foi bonito, como era sempre bonito ver a veracidade da prima Vera.
Na tal busca de si mesma, acabou, aparentemente, se perdendo. Não satisfeita com o que a "consciência normal" lhe dava, tentou, com aquelas coisas aí que a gente usa para perceber diferente, um entendimento satisfatório da existência, um alívio das angústias. Digo que a perda de si mesma foi aparente por me perguntar, depois de tudo acontecido: o que é se achar? Alguém se encontra, alguém encontra algo de fato?
Penso que a prima Vera mergulhou fundo justamente por conta de sua autenticidade, de sua necessidade de alguma essência, por não conseguir construir uma realidade fácil que lhe diminuísse o sofrimento. Houve alívios momentâneos. Pelo menos quando estava "chapada". Ali parecia haver uma clareza, um modo de sentir a existência que, na sobriedade, não existia. Ou pelo menos um desafogo. E desafogo era o que menos existia em sua sobriedade.
Aí estava o grande problema. Não havia como reviver, sem as tais substâncias, o estado de ser que provocavam. Ela tentava, mas era impossível. Concentrava-se, fazia o possível para ter, de cara limpa, os momentos intensos que vivia quando "viajava"... e nada. Angustiada, percebia o quanto o poder da fisiologia é superior a qualquer capacidade que o pensamento possa ter de provocar estados de consciência, de sentimento, de vivência.
Quando o efeito das drogas passava, o que mais a maltratava, mais do que a depressão, mais do que a ressaca, mais do que qualquer coisa, era perceber-se como sistema nervoso submetido à ação de substâncias, fossem elas de fabricação própria - ah, esses neurotransmissores nossos de cada dia! - ou ingeridas para "dar barato". Sentia-se como máquina, máquina orgânica. Quando se drogava, pelo menos parecia ser agente do estado em que ficava.
Via-se como pouco - ou nada - dona de si mesma. Podem dizer que essa perda de autodomínio vinha da ação da droga. Nada disso. A sensação de ausência de autonomia era anterior a isso. Vinha da percepção da condição humana, condição tão mais próxima da dos cachorros que nascem para latir e que por isso latem do que as pessoas ousam admitir. Ah, sentem-se tão donas do próprio nariz!
Ela fugia, ou tentava fugir. Fugir? Acho que tentava, no escape, encontrar, encontrar-se. Na procura pelo que fosse dela, pelo que fosse ela, buscava a vida. Vida para valer. E assim me contradigo, e digo que a prima Vera era, na verdade, primaveril. Porque buscava o impulso, o sentido de sua existência. Muito mais do que as pessoas convencionais, com suas respostas, certezas, crenças de que "aqui na minha vida mando eu".
Não seria a consciência da pouca autonomia humana justamente o que a diferenciava, o que a tornava mais senhora de si do que a maioria? Acho que sim. Tinha, pelo menos, o conhecimento de que não podia dominar a si própria. Sim, ela sabia. Mas ainda assim tentava, usando os tais alteradores de consciência, numa espécie de esperança teimosa encontrar algo melhor do que percebia da vida.
Morreu de overdose na primeira noite da primavera de 1999. O caixão foi adornado com violetas. Bem roxas, bem escuras, como sempre disse que gostaria que fizessem quando morresse.










