Tema da semana: 'Sinais'

Segunda-feira, Setembro 11, 2006

Os "big bangs" de ontem, os de hoje e os de sempre

Ela andava pela rua, sorridente, com aquele ar de quem não imagina o horror que virá a seguir. Acenou para as filhas, continuou andando e, de repente, a coisa começou: gorda que era, foi aumentando ainda mais. Inchou, inchou, inchou e... BUM! Explodiu. Acharam num canto da rua uma orelha com brinco. Em outro, um dedo com anel. As jóias foram disputadas.

O que narrei acima foi um fato real. Sim, fato real para a menina que, criança nos anos 70, viu pela TV Dona Redonda explodir na novela Saramandaia. Como dei trabalho para minha mãe! Foi uma espécie de “trauma light”. Tenho a lembrança das noites sem dormir com medo da explodida. Por mais que me dissessem que era ficção, para mim era realidade. Afinal, eu vi! A cena eu não sei se foi como descrevi, mas foi assim que tudo ficou registrado em minha memória.

E aí vem outra lembrança do meu “antigamente”: eu e minha família passeando no Convento da Penha, em Vila Velha, logo depois da embasbacante explosão da Dona Redonda de Wilza Carla, aquela do Show de Calouros do Sílvio Santos. Morávamos no Espírito Santo. Minha mãe, aproveitando o ensejo - mais especificamente a sala dos ex-votos - disse algo como: “tá vendo esses braços e pernas de mentira? Com a Dona Redonda foi a mesma coisa. É tudo mentirinha”. Não tenho certeza, mas acho que concordei a contragosto. As explicações dos adultos, por mais sentido que façam, estão longe do poder de realismo que tem, para uma criança, uma cena de novela.

Anos depois, já bastante - bastante mesmo, embora não no tamanho - crescida, recebo, de manhã, um telefonema de minha irmã. Eu estava fora de casa (sim, agora são tempos de telefone celular) e ela, confusa com o que tinha visto, falou que um avião havia se chocado contra o World Trade Center e que a coisa não tinha, até então, explicação. Cheguei em casa, liguei a TV e comecei a acompanhar aquilo tudo. Ao contrário do que senti quando da explosão da Dona Redonda, pensei, ou melhor, senti: “só pode ser mentira! Não é possível!”

Fiquei pensando: quem estava lá, nas torres, naquela realidade-ficção da minha vida adulta, não imaginava o horror que viria a seguir, do mesmo jeito que a Dona Redonda da minha ficção-realidade da infância não suspeitava que explodiria em questão de segundos. Em 2001, fiquei pensando se as pessoas que morreram “instantaneamente” pereceram tão instantaneamente assim. Será que tiveram tempo de perceber o que aconteceu? Mesmo que não quisesse pensar nisso, ficou na minha cabeça: “qual terá sido o último instante de toda aquela gente?” Com a Dona Redonda foi diferente. Minha cabeça de criança não comportava essas idéias. O que me assustava ali era a orelha, o dedo, o fantasma que viria me assombrar.

A gente cresce e as coisas mudam, apesar de a sensação de espanto ser igual. O motivo é outro, a sensação basicamente a mesma. Em cada época, um susto diferente. E já que estou falando em sustos e tentando escrever sobre explosões, devo falar de algo que me acompanha desde a adolescência: o susto diante da existência, do fato de estarmos aqui, enfim, de tudo estar aqui. Dizem que o começo do universo – pelo menos deste no qual vivemos - pode ter sido uma grande - BUM! - explosão. Chamam a coisa de “explosão primordial”. Será que foi assim mesmo? Isso me espanta há tempos, e acho que sempre será motivo de susto para mim.

Seja como for, meu “post primordial” para o Mimeographo começaria de outra forma. Eu pretendia falar das onomatopéias e do quanto são pouco perto do que significa qualquer explosão, seja ela de uma bomba ou de uma emoção. Estava difícil, o texto não saía e eu, destreinada que estou, estava prestes a... explodir! A amiga Viva (ah, essa Viva!), lembrando Saramandaia, trouxe à tona minha lembrança de infância. Foi minha salvadora! Meu “ajuntado” Guto, para quem eu já havia contado mais de uma vez a história do meu trauma com a Dona Redonda, deu a força que faltava. E assim, desta vez, fui poupada de explodir emocionalmente. Agradeço a eles por desarmarem a bomba, à Sandra por me propiciar este novo “Big Bang” e ao Doni por me dizer como funciona a existência por aqui. Espero que este universo “mimeographado” se expanda cada vez mais.

Por Mônica Ribeiro