Tema da semana: 'Sinais'

sábado, setembro 09, 2006

Onde a chuva acaba*

Há pequenos mistérios infantis que levam anos pra se desvendar. Eu, por exemplo, levei 31 anos e alguns dias pra descobrir onde acaba a chuva.
É certo que a inteligência levemente prejudicada, a visão de mundo tacanha, a dificuldade de enxergar a ponta do nariz e além, contribuíram consideravelmente pra esse retardamento. Mas isso não importa mais porque sempre é tempo de aprender - pelo menos é o que dizem.
Hoje eu vi a chuva lá longe, cortina esbranquiçada sobre a cidade. Essa cidade que, bela e cruelmente, vai me fazendo ficar mais tempo do que eu houvera imaginado. Morar aqui no alto me permite entender um pouco desse outro mistério: o da cidade que aprisiona.
São as ruas simétricas, as rótulas ajardinadas e floridas - há uma com relógio de flores, até -, as circulares e radiais que sempre levam ao lugar em que é preciso chegar. (Ao lugar em que é preciso, não ao desejado).
Pois foi em um improvável trajeto entre as avenidas 85 e T-63 que a cortina branca de água e vento veio vindo, trazendo aquele cheiro de coisas boas e molhadas. E eu, do alto da janela mais alta, observando. A cidade, com dimensões quase infinitas à luz do sol, diminuindo, diminuindo. Resumiu-se àquelas quatro quadras além daqui, aquém da chuva.
Há uma teoria, não sei se séria, que garante estarmos separados de qualquer outra pessoa na face da Terra por apenas outros seis indivíduos. (Não sei se está incluído quem vive no mundo da lua). "O mundo é um bairro", dizia a amiga um tanto ausente. Eu diria ser o mundo um Show de Trummam.
O cenário muda conforme a estação climática, não tanto aqui nos trópicos. Mas haveria de haver um verão vermelho, um outono amarelo, um inverno azul e uma primavera colorida. Mas há um eterno verão amarelo e opaco, um tênue e falso inverno cinza.
Há muitas coisas que ainda não descobri. Por exemplo: se a linha do horizonte é mais distante da janela de um Boing. Ou a bordo de uma erva qualquer. Ok, eu não sei nem mesmo medir a distância daqui até a pizzaria!
Essa falta de discernimento, essa ausência de tato pras coisas simples, banais, matemáticas, é que dificulta tudo. Porque abstração só é possível a quem tem tudo. Ou a quem não tem nada a perder.
É mais ou menos assim: há uma lacuna de cerca de 50 metros entre a parte molhada e a parte seca da (ausência da) chuva. E é nesse intervalo que estou.
Aqui os pingos não são suficientes pra molhar, mas também não deixam seco. Aqui se desfaz o mistério. A chuva começa e termina na lacuna espacial de 50 metros. No espaço temporal de minutos preciosos. Sobre um solo arenoso e sob um céu indeciso.
A chuva termina entre a minha janela e a sua. Entre o que eu tenho e o que realmente desejo. Entre a sua boca e a eternidade, seu provocante baton vermelho e um murro na parede.
A chuva começa no intervalo entre o salário no início do mês e o último gole de vinho na estação de trem. No último real, último dólar, último euro. No limite, rotineiramente ultrapassado, entre a música preferida e a odiada. Entre o amor, sempre duvidoso e o ódio, sempre real.
A chuva começa e termina bem aqui onde estou. E os pingos, aqueles que nem te deixam seco nem molhado, entram pela janela, agridem o rosto, obrigam piscadas de olhos fora do ritmo. E, assim, como flashes de raios, as coisas vêm, as coisas passam, as coisas vão...
A chuva acaba aqui onde estou. Onde tudo deveria começar.
Por Paulo Galvez, a convite de Aline Tomaz.
* Publicado originalmente no Terceiro Caderno