Tema da semana: 'Sinais'

segunda-feira, setembro 18, 2006

Musiquices

Minha mãe contava que eu tinha cinco anos quando ganhei dos meus pais o órgão infantil Hering de que me lembro até hoje. Meu brinquedo musical era bege e bem robusto. A tecnologia que encolhe as coisas não era tão craque como hoje. Minha mãe também contava que, certo dia, brincando com meu Hering, comecei, para espanto geral, a tocar o refrão de uma música. Acho que foi isso. Porque até as histórias das lembranças podem ser inexatas, já que são também lembranças. Faz muito tempo que ela me contou isso.

A pérola que toquei foi “O Telefone Chora*, e nem preciso dizer que é brega. O nome – que tem lá seu charme, não tem? - diz tudo. Devo ter ouvido no rádio, mas na verdade não sei como foi parar em minha cabeça. Depois fui brincando de tocar outras melodias no órgão e no piano de minha tia-avó-madrinha Fifina, mas não passou disso. Continuo, em termos de conhecimento musical, a mesma de trinta anos atrás. Consigo reproduzir as melodias que ouço e só. Estagnei na coisa, mas o meu primeiro contato consciente com a música não deixa de ser uma lembrança agradável.

Mais tarde, já adolescente, passei os anos de 1986 e 1987 no Iraque. Meu pai trabalhava na Mendes Júnior, e foi dessa forma que fui parar no Oriente Médio. Toda sexta-feira – nosso “dia fim-de-semana”, o único de folga que tínhamos – um ônibus da empresa ficava à disposição de quem quisesse ir a Nassiria, cidade mais próxima da colônia de brasileiros em que morávamos e que o Jornal Nacional, quando do início do atual conflito no país, insistiu em chamar erroneamente de Nassíria, com acento.

No ponto em que o ônibus nos deixava, havia auto-falantes no topo de uma edificação enorme, que não sei o que era e nem sei se um dia soube. Foi minha primeira visita à cidade. Era um passeio de adolescentes sem adultos para vigiar. Tenho de louvar o desprendimento dos pais que deixavam a gurizada de quinze anos ir sozinha àquela cidade estrangeira. Na época eu não pensava na liberdade que nos concediam. Os adolescentes costumam achar que isso não passa de obrigação dos “velhos”. Não, nem todos os pais fazem isso.

Mas, enfim... Do alto do prédio – um edifício branco enorme - saía aquele canto lamentoso, no árabe que eu não conhecia e que continuo sem conhecer, tão diferente da música-nossa-de-cada dia. Por causa daquela canção, deu-se um dos muitos momentos de espanto que vivi quando cheguei ao Iraque: “caramba, isto aqui é mesmo outro mundo!”

Depois fui descobrir que o mundo não era tão outro assim. Um dos programas preferidos de minha turma era pegar o ônibus para Nassiria e, além das lojinhas de cosméticos e outras quinquilharias que agradam as meninas, visitar lojas de fitas cassete piratas. Havia uns gravadores enormes que copiavam, em poucos minutos, fitas do pop ocidental. Madonna, Michael Jackson e George Michael faziam sucesso por lá. A Radio Baghdad, transmitida em inglês, também era adepta do pop. As fitas dessas inúmeras lojas – eram muitas! - custavam baratinho, e vinham com o nome do artista escrito a caneta em árabe. Lembro de ter comprado, num desses passeios, uma de música local. K7 pirata que acabei perdendo. Gostaria de ouvir novamente.

Tenho também, na combinação Iraque-música, uma história de susto. No local em que morávamos havia um clube para funcionários. Era um terreno enorme e, ao fundo, havia uma quadra de futebol de salão com arquibancadas. Perto, uma guarita. Na ocasião, já que não havia jogos, estava tudo escuro. E a turma adolescente na arquibancada, uns deitados nos colos dos outros, contando histórias de terror. Todos naquele clima de “estou no jeito para levar susto por qualquer coisinha que seja”. História vai, história vem, de repente surge, do breu, uma voz cantando. Nem diria cantando, mas gemendo. Não preciso falar que todo mundo se levantou e saiu correndo, preciso? Depois soubemos que era o vigia do clube, um iraquiano que lá da guarita fazia sua oração-canção. Sempre a música na religião: outro exemplo de como os diferentes mundos não são tão diferentes assim.

O que sei é que, pensando em música, e sem querer falar de referências ou artistas específicos, várias lembranças vieram. Uma mais atual diz respeito a uma parente meio distante do Guto, meu marido. Aila, com seus 70 anos, pessoa que gostei tanto de conhecer, é filha de uma violinista de cinema mudo e, assim como a mãe, dona do que chamam “ouvido absoluto”. Violinista de cinema mudo! Gostei de conhecer aquela história romântica. Em outra oportunidade, já que o texto está ficando grandinho, falo disso com calma.

Enfim, de lembrança em lembrança, de pensamento em pensamento, fico pensando na presença forte da música, no silêncio das personagens dos filmes mudos sendo preenchido pelos músicos ali, ao vivo, tocando. Também penso no quanto a música está presente na religião, no quanto os primórdios da música devem ter se relacionado com o sagrado, com os cultos, com os rituais. Fico pensando, pensando e lembrando. Tenho andado saudosista.

* No link que encontrei com a letra da canção, a autoria está aparentemente atribuída a Marcelo Duran, mas acho que o autor é Márcio José. Bom, não sei de quem é.

Por Mônica Ribeiro