Love song
Estranhamente, o que doía, a dor mais profunda que já sentira, e a incomodava a cada lembrança que insistia em assombrá-la, era saber que tudo o que vivera não era cantado por uma música em especial. Aquela que depois do caso acabado serviria como trilha sonora para a cena clássica de depressão pós-romance mal sucedido. E, anos mais tarde, quando estivesse distraída no corre-corre da vida que segue, a permitiria amar aquele homem novamente no curto instante de uma execução ao acaso.
De toda aquela história, no entanto, restara apenas um silêncio sufocante e triste. Sem música, ela não conseguia chorar o caso de amor perdido. Sem música, ela não poderia amá-lo eternamente ainda que por alguns poucos minutos da canção que eles não tinham. Sem música, tudo que sentira quando esteve junto a ele era nada. Porque história de amor sem uma música que a cante pode ser uma história qualquer, mas não uma de amor.
Era essa a sua dor. A angústia de que talvez tenha sentido tanto, se entregado tanto para um caso de não-amor. Às vezes, lembrava-se das muitas músicas que embalaram seus encontros fortuitos, mas, em seguida, voltava-se à aflição de não ter uma que cantasse a sua história com tal singularidade e delicadeza.
Passou dias num completo silêncio. Até que lhe começassem a soprar aos ouvidos uns acordes. Eram solos de guitarra. Passou outros dias ouvindo mentalmente esse som, até que se permitiu sussurrar versos melancólicos para seu romance mal resolvido.
Tem gente que inventa o amor, ela só teve que fazer uma baladinha rock and roll.
Por Jussara Soares










