Tema da semana: 'Sinais'

Sábado, Setembro 16, 2006

A explosão de Ana

Era mais um dia de rotina pesada. Aninha saiu de casa bem cedo para o trabalho, iniciou a maratona da seqüência de quatro ônibus lotados que precisava enfrentar para chegar à loja de artigos de informática, que não era muito longe de casa, mas era difícil chegar sem carro.

Naquela manhã de quarta-feira, algo inusitado aconteceu na última condução, que lhe deixava sempre a algumas quadras da loja. Estava lotada, como sempre. A novidade era um perfume envolvente que vinha de trás dela. Sem saber quem era, sentia uma vontade incontrolável de se entregar àqueles braços que exalavam o cheiro de homem viril. Ana viajava naquele perfume. Imaginava quem era o dono daquela fragrância máscula, entorpecente.

Desceu na mesma parada de costume, percorreu as três quadras até chegar ao trabalho. A via estava com o movimento de sempre, as mesmas pessoas abrindo as lojas, os mesmos moradores varrendo as calçadas, as mesmas donas de casa trazendo o pão fresquinho... Enfim, era melhor se despir dos sonhos e entrar no ritmo cotidiano também. Dia sem novidades. Apenas a ansiedade de que tudo aquilo terminasse logo para recomeçar o outro dia. Quem sabe Ana sentiria aquele cheiro novamente.

Manhã de quinta-feira. Ana se levanta da cama sonolenta, se arruma e sai para mais um dia. Três ônibus lotados e a pressa de chegar logo ao último. Apesar de ter pulado da cama às seis, ainda sonhava com o príncipe do perfume misterioso. E ele estava lá novamente. Dessa vez, mais próximo. Muito próximo. A distância era suficiente para Ana sentir um corpo quente encostando-se no seu, de forma diferente dos outros tantos que não tinham outra opção. E o perfume estonteante lhe penetrando as narinas. E um desejo arrebatador brotando dos poros. Susto. Suor frio. É hora de descer. Dia perturbador. Ana não conseguia esquecer daquele calor aromático do ônibus lotado.

Manhã de sexta-feira. Ele não apareceu. Frustração. Tristeza. Ansiedade. Desejo latente. Tentou deixar pra lá. Nada poderia mesmo acontecer. Tinha o marido que qualquer mulher pediu a Deus. Por isso, não tinha coragem nem mesmo para se virar e ver quem era o dono da magia.

Manhã de sábado. Aninha deu um beijo em Pedro antes de sair – coisa que ambos não costumavam fazer – e foi novamente para o suplicio dos três ônibus. O quarto já não era mais sacrifício, mas sim esperança de sentir novamente o desconhecido entorpecente. Foi um misto de medo, satisfação, e vontade, que explodiam dentro de Ana. Estava decidido: hoje ela descobriria quem era. Antes que ela se virasse, sentiu novamente o calor diferente. Se deixou levar e o corpo se aproximava cada vez mais. Ana já sentia o cheiro de sexo. E o membro desconhecido crescer e pressionar os glúteos torneados dela.

Ela já estava completamente pronta para receber o desconhecido dentro dela, mesmo sem conhecer ao menos um detalhe de seu rosto ou mesmo saber seu nome. A masturbação recíproca estava próxima do fim. Estava na hora de saltar novamente para mais um dia como outro qualquer. E assim aconteceu.

Normalmente, Aninha era a única a descer naquela parada, mas neste dia sentiu que não estava só. Chovia muito e ela tinha que se apressar, já que estava sem guarda-chuva. Nem os pingos grossos foram capazes de apagar o fogo aceso pelo estranho. Depois de poucos passos, o nariz da vendedora identificou, em meio ao cheiro de terra molhada, aquele cheiro exótico que a enlouquecia.

Ana não sabia se corria, se parava, se voltava. Não teve tempo para nada. Ele se aproximou. Sem dizer uma palavra agarrou o corpo ensopado e incendiado, sem reação contrária. Beijos, amassos, paixão incontrolável. Não existia a menor possibilidade de resistência. Ana estava completamente tomada de desejo. Parou de pensar em tudo e se entregou por inteiro ao estranho.

Não eram oito horas e o comércio ainda estava fechado. E foi embaixo de um toldo que os amantes encontraram abrigo. Se entregaram ao sexo, sem pudores ou dificuldades. O mundo em volta do casal deixou de existir quando o desconhecido penetrou a vulva quente e úmida de Ana. Não ouviram sinos, mas experimentaram uma explosão de prazer, como Ana nunca sentiu.

A chuva diminuía e o tempo passava. Também sem dizer nada, o estranho se ajeitou e saiu. Ana foi para a loja. Seis anos depois, ela ainda guarda esse segredo. E sempre que entra no Eixo Campinas, em direção ao Jardim América, renasce a esperança de que aquele homem apareça novamente.

Por Aline Tomaz