Era primavera e eu não encontrava a vida*
Era primavera e o sorriso dEla surgia angelical todas as manhãs entre travesseiros. Nossos dias eram mágicos. Íamos sempre ao bosque no centro da melhor cidade, da nossa cidade. Os dias eram agradáveis, mas a alegria das pessoas com suas crianças, cachorros e sorvetes me doía. Porque eu estava com Ela, mas não estava ali. Eu visitava mundos distantes e desconhecidos, eu me procurava.
A minha eterna busca por mim mesmo começara séculos antes. Resultado de ventos e sonhos, eu não tinha presente, apenas memórias longínquas e irreais. Ela sempre estivera comigo e desde o início dos tempos seu sorriso era minha única salvação. Era Ela quem me salvava de monstros horríveis e me libertava de mundos cruéis.
Ela estava comigo. Mas era eu quem não estava ali. Eu estava no sempre dos finais de tarde. Quando Ela surgiu pra me resgatar tudo em mim era noite. E as trevas do além-fim revelaram meu medo de me encontrar.
O que ainda existia de mim não era mais, de repente, nunca fora. Eu povoava o mundo das idéias, sublimava, me impedia de me concretizar. Eu era etéreo, ectoplasma de mim mesmo. Eu era todos os seres, toda a vida e morte existentes num único pôr do sol.
Acreditei, depois de séculos e mundos percorridos, que estava salvo. Mas Ela, Ela não existia.
* Publicada originalmente no Terceiro Caderno
Por Paulo Galvez, a convite de Aline Tomaz










