Tema da semana: 'Sinais'

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

Big Bang na Big Apple

Seja qual for o motivo, onde existe humanidade há sempre o risco de alguma coisa ir pelos ares! No sentido concreto, a gente não prestava muito atenção nisso, até que veio setembro. Setembro de 2001 é claro. Era uma terça-feira comum, precisamente, às 8h46 da manhã. O resto a gente sabe... Pelo menos, acha que sabe! O que ninguém mais tem dúvida é que onde tem fumaça, há no mínimo, dois discursos em conflito!
O Fiorin, em "Linguagem e Ideologia", diz: "o discurso é a arena dos conflitos". Tem sido assim desde que inventamos a linguagem, a civilização, o poder e a arte de argumentar para mantê-lo sempre ereto! Assumir isso sem ruborizar, tempos atrás, pegava mal. Por isso, o discurso usado para justificar nossas insanidades era chamado "certeza moral coletiva criada por uma convenção ancestral, que ninguém lembra mais qual é". Isso significa que a mesma mão que embala o berço ou que ergue-se para o céu proferindo uma benção, também é a que aciona o detonador sem piedade. A moralidade flexível do discurso lubrifica e justifica o ato. A única coisa que fica intacta depois que tudo se despedaça é o próprio discurso que cada lado hasteia.
Houve uma época em que as "explosões" eram praticadas por paladinos. Teve Galileu explodindo Aristóteles. Teve bucaneiros cruzando oceanos para tornarem-se feitores ou libertadores da América. Alguns ficaram no velho mundo, juntando os cacos de uma Europa faminta e fragmentada em tribos louras latino-anglo-saxônicas. Numa época onde conflitos, que eram barris de pólvora, explodiam opressores absolutistas. Iluministas explodiram a Bastilha e cortaram cabeças de reis e vigários gerais. Houve Darwin explodindo Gênesis. Mal começara o século XX, os filhos de Gandi explodiram colonias na Índia e na África. Em tempos recentes, Guevara, Mandela e Gorbachev detonaram os últimos discursos românticos antes da chegada do novo milênio.
Tá percebendo como na virada do século o discurso de comando foi ficando escasso até sobrarem somente lascas do muro de Berlim como suvenir? Tá vendo o Fidel minguando ilhado e a China de olho grande tanto em Wall Street quanto na bolsa de Tóquio? Sem o monólogo bifurcado em "direitas e esquerdas", o discurso dominante corria riscos de começar o novo século implodido por falta do que fazer, sem substância política e teológica ou, pior, a coisa estava migrando como uma prostituta para as mega-corporações S.A. Caótico não? Imagina só, o século XXI começando com a humanidade (pela primeira vez) sem medo de coisa alguma. Afinal, como pode haver poder sem medrosos? Se em outras viradas de século o bicho-papão era a peste negra, o cometa Halley... O ano 2000 já havia zerado, sem que tivesse ocorrido o apocalipse e nem "bug" do milênio. E poder, nós sabemos, necessita de um rebanho em pânico. Para piorar, a ciência, que sempre fora subsidiada por ele, começava a flertar com a iniciativa privada. Primeiro, disponibilizando um coquetel que não deixava mais o discurso moralista culpar o comportamento gay pelo avanço da AIDS no ocidente. Depois que a Nature publicou que noventa e tantos por cento do nosso DNA tem similaridade com o de grandes primatas, uma corrente fundamentalista chamada "Design Inteligente" invadiu as escolas primárias americanas com o patrocínio da Casa Branca. Agora olha a lógica: ciência costuma ser relativista e relativismo costuma minimizar os efeitos do fundamentalismo! Percebe também que com o crescimento da mídia alternativa (leia-se a turma do Michael Moore) e a da internet, transmitindo ao vivo o genocídio nos Balcãs, havia ficado mais complicado ao poder usar conflitos locais onde "brancos de aparência ocidental" se dão mal, pra fazer a "Terceira Guerra Mundial"? Se antes, para "fabricar fatos" que justificavam jogar napalm, o agente laranja, sobre o Vietnam, bastava o discurso carismático de um estadista, o mesmo lero já não cola mais.
Em 2001, tudo parecia promissor, calmo e favorável ao Euro. Os caras precisavam de uma coisa de impacto. Algo hollywoodiano, com jeitinho de armagedon! Foi quando a sombra dos boeings riscou o céu de Nova York. O que houve em Manhattan naquela manhã faz e não faz sentido. Raciocina comigo: palestinos e israelenses têm discursos para explodirem alvos, certo? O Hizbollah também tem. As FARCs tem e até o PCC, quem diria, adotou um recentemente. Mas quem souber qual é o discurso da Al Qaeda, me conta. Será que não é o de apenas dar suporte para a cruzada neo-protestante da república dos Bush conseguir "apoio popular"? É só prestar atenção ao discurso deles. O ocidente é "o bem" e o oriente "o mal". Outra pergunta pertinente: quem deu ao senhor Laden voz legítima para representar e falar em nome do Islã?
A voz do Osama ecoou justamente quando o clã dos Bush mais precisava arrebanhar crédulos e medrosos para demonizar símbolos não-ocidentais. Coincidência? Teoria da conspiração? Sei lá... Mas quer terreno melhor que o da intolerância e do fundamentalismo religioso pra plantar uma bomba com tamanho poder de fertilidade, que ao ser detonada produzisse uma farta colheita de pânico no novo século? Alguém ousa dizer que o pânico não é a marca desse início de século? Quer justificativa melhor para continuar mantendo o discurso dominante de "protetores do ocidente" e ao mesmo tempo, mantê-lo como área grilada e campo minado?
É isso... Chegou setembro. As velas ainda queimam... Dia 11 teve aniversário.

Por Gil Rosza, convidado especial da hectógrafa Jussara Soares.