Tema da semana: 'Sinais'

Quinta-feira, Setembro 14, 2006

11 de Setembro em Japeri

O sacolejo do trem é um convite ao sono e muitos dos passageiros não resistem: cochilam a caminho de casa depois de mais um dia cansativo de trabalho. Mirtes está acordada. Bem acordada. Não vê a hora de chegar à quadra da escola de samba do coração. Não vai lá há anos, desde que conheceu o ex-marido, Anselmo. Menos de um ano depois do início do namoro ela já estava casada. Deixou o subúrbio carioca para morar em Japeri, na Baixada Fluminense. Trocou as noites de samba pelas manhãs de culto na igreja evangélica.
Terminar o namoro com Jorge, o mestre-sala da Arranco do Engenho de Dentro não foi decisão fácil. Mas parecia a mais acertada. Boêmio, sambista, Jorge era a incerteza em forma de homem, se equilibrando de biscate em biscate. Anselmo era um porto seguro. Crente, emprego de carteira assinada: rodoviário. “Como ele fica bonito uniformizado”, suspirava a então sambista. Na hora das grandes decisões, Mirtes gostava de ouvir os pais. Mas quando terminou com Jorge, ‘seo’ João não podia ser mais ouvido. O velho militante comunista tinha sido vencido por uma grave doença. A mãe, dona Enedina, apoiou a decisão. Como apoiaria também o casório com Anselmo.
João conhecera Enedina no samba. Apesar de ateu, a acompanhava nas incursões aos terreiros do subúrbio do Rio nas noites de sexta-feira. Gostava dos sons dos atabaques, da amizade com a rapaziada e da cachaça coquinho servida em cuia. Um dia, Enedina “aceitou Jesus”. E as afinidades com o marido começaram a rarear. O que antes a orgulhava, agora era motivo de vergonha. Jogava em João a culpa pelo pouco dinheiro, pelas provações do dia a dia. João fôra ferroviário. Líder da categoria, foi demitido da Rede Ferroviária na ditadura. Virava e mexia, era recolhido pela polícia, pelo Exército, por quem fosse o repressor de plantão. “Enedina, vou sair de férias de novo. Se deixarem, eu volto”. João não perdia o bom humor nem nas piores horas. Seu nome chegou a ser incluído na lista dos cassados que o governo estudava indenizar. Não deu tempo. Pouco depois da redemocratização, uma tuberculose desenvolvida nas noites passadas na fria laje da prisão, temperadas com jatos de água geladas, o levou embora. O partido pagou o enterro. Mas Enedina não gostou nada de ver a bandeira vermelha sobre o caixão. “Estes gostam de provocar”, disse para a filha, se referindo aos camaradas de João, e se esquecendo que a ditadura morrera antes mesmo que o bravo militante.
Mirtes sempre gostou do pai, mas ouvia sempre as reclamações de dona Enedina. Quis o destino que fosse trabalhar com Patrícia, uma filha de ferroviário fã de João. Patrícia sonhava em entrar para a luta armada e mudar o mundo. Apaixonou-se por um burguês e leva uma vida de classe média na Tijuca. O marido se tornou um empresário famoso. Ela aplaca a culpa que sente pelo destino melhorando, sempre que pode, as condições de trabalho de Mirtes. O marido costuma fazer troça da relação entre a patroa e a empregada: “Você está mais pra presidente de sindicato que para patroa. Ainda bem que só manda no salário da Mirtes”.
Foi Patrícia quem deu a folga extra a Mirtes no dia do aniversário. Ela cantarola um samba antigo do Arranco quando se encaminha para a quadra, no Engenho de Dentro. Agora ela pode ir. Faz seis meses que Anselmo foi embora para Magé, atrás de uma “irmã” passageira assídua da empresa em que trabalhava. Mirtes chorou duas semanas. Até ver que a coisa não era tão triste assim. Ela tinha era segurança com Anselmo. Quem sabe não era chegada a hora de procurar um amor?
Mirtes chega à quadra. É dia de escolha de samba. Não demora para ver Jorge. O mestre-sala engordou e mudou de função: é diretor de bateria. Pedreiro dos bons, virou encarregado respeitado por engenheiros que nem sempre dominam uma obra como ele. Tem dois filhos e é viúvo. Eles conversam e Mirtes lembra dos versos de Chico Buarque que ele cantarolou para ela na última vez que se encontraram: “Você era a mais bonita das cabrochas desta ala/ Você era a favorita, onde eu era mestre-sala/ Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua...” “Será que ele ainda pensa assim?” Mirtes samba como se tivesse guardado todo o fôlego dos últimos anos para aquela noite. Procura uma diretora de ala, vai desfilar no Carnaval. Não há mais trem para Japeri. Jorge a leva no Chevettinho reformado. “Aceita um café?” Ele aceita e só vai voltar ao Rio pela manhã. Naquele 11 de Setembro, bem longe da terra de Bush, o que explodiu foi o amor de uma mulher brasileira. Com quinze anos de atraso.
Por João Henrique