Tema da semana: 'Sinais'

segunda-feira, agosto 28, 2006

Uma, em Todas

Acorda cedo. Cedo é noite e a noite acaba.
Monta a marmita do marido, faz a própria. Faz o lanche dos filhos, coloca as sobras da janta sobre o fogão. A janta vira almoço. Junta a roupa largada, dobra as cobertas, fecha o saco de lixo, lava o rosto, penteia os cabelos, passa batom.
Beija os filhos que dormem, abraça o marido, abre a porta, afaga o cachorro.
Cumprimenta a vizinha, caminha até a estação. Se espreme no canto do vagão, encosta, cochila. Senta quando sobra espaço, olha a janela, pensa na vida, sente o dia clarear.
Desce do trem, caminha até o ponto, espera na fila, sobe no ônibus, se amontoa num canto, olha as pessoas. As pessoas não a vêem. Puxa a cordinha, pede licença, desce.
Marca o passo, caminha no frio, aperta a bolsa contra o corpo. Chega.
Troca de roupa, enverga o uniforme, junta suas armas, inicia a batalha. Varre o chão, passa pano, limpa mesa. Veste as luvas, lava a pia, lava o chão. Junta o lixo, carrega o saco, limpa o cinzeiro.
Pára um pouco, toma café, conversa, sorri. Recarrega as armas, sobe um andar, recomeça.
Pára de novo, almoça a janta, deita na grama, olha as nuvens. Respira fundo, ganha fôlego. Recomeça. Sobre três, sobe quatro andares. Fecha no cinco.
Guarda as armas, tira o uniforme, lava o rosto, passa batom, penteia os cabelos.
Caminha. Se espreme no ônibus, caminha, sufoca no trem. Caminha.
Cumprimenta a vizinha, afaga o cachorro, abre a porta, abraça o marido.
Beija os filhos, faz a janta. Sobra pro almoço. Lava a roupa, limpa a casa, janta, lava a louça.
Lava o corpo, banha os cabelos, deita na cama, assiste à novela, cochila.
Desliga a TV, ajeita os filhos na cama, beija o marido.
Liga o despertador, apaga a luz, deita, pensa na vida, dorme.

Pode ser Judite, Maria, Sônia, Isabel.
Parece com Vera, Simone, Rosa, Thereza.
Luta como Márcia, Jussara, Aline, Roberta.
Sonha como Yvonne, Anna, Juliana, Patrícia.
Sorri como Mônica, Carolina, Myllena, Jacqueline.
Pode ser todas, em uma.
Uma, em todas.
Mas é, e sempre será, alguém.


Por Sandra Pontes