Tema da semana: 'Sinais'

sábado, maio 20, 2006

Os bobos de Goiás

Na cidade de Goiás, os bobos vivem soltos. Mas não são os bobos inconvenientes das grandes cidades que se põem a gritar diante dos prédios públicos, a xingar o prefeito, o vizinho, o presidente dos Estados Unidos, os fantasmas todos que os açoitam com perseguições terríveis. As cidades pequenas produzem bobos; as grandes, doidos de jogar pedra e bombas, e cantar pneus nas ruas.

Em Goiás os bobos babam livres. E são uns velhinhos mansos que riem de tudo e parecem achar ainda dinheiro perdido nas calçadas e alguma graça na vida. Perguntam as horas a toda hora, baixinho, como se o tempo ou os relógios lhes importassem, como se a pressa ou a missa lhes conviessem, como se tivessem compromissos urgentes na próxima esquina, onde se deitam a mendigar nadinha. Eles não têm que salvar o mundo. Não são Jesus ou qualquer Buda. Não depende deles a sorte dos homens sobre a Terra. Seus delírios de grandeza não passam de curtos suspiros. Não leram O Alienista.

Conta a tradição que os bobos de Goiás nasceram do pecado dos consangüíneos. São a herança do orgulho e da avareza, de famílias que sacrificaram a inteligência por não sei qual baú de frivolidades ou de sutilezas. Mas talvez mesmo por isso seus bobos de nascença não são filhos da cruel concorrência do mundo, que não aceita os diferentes, os demasiadamente sensíveis, e que assim exatamente os cria. São naturais, vindos de uma mesma linhagem, do mesmo saco de gatos, de um pacto de desgraça consentido. Desfrutam de um certo status. Circulam livremente . E se fazem alguma bobagem, ela é logo escondida e protegida. Ou solenemente ignorada.

Um dia já antigo, quando eu estava com minha câmera e a arrogância da reportagem, um velhinho bobo saiu de um sobrado na Praça do Coreto, subiu apressado e desceu novamente trazendo a mulherzinha também velha e boba para o seu lado. Fez pose sorridente para que eu os fotografasse. E eu fiz sua fotografia imaginária. E eles ficaram felizes por tirarem a foto que nunca tiraram e não me encomendaram uma revelação impossível. Talvez não fosse bobeira, mas caduquice, o que para os que crêem ter juízo dá na mesma. Até Cora Coralina tinha sua boba de estimação: a boba de Cora, a Maria Grampinho, cujos grampos em demasia a famosa enchente levou para tentar prender, numa vulgar mas irresistível metáfora, a cabeleira revoltosa do rio.

Eu que sou goiana meio abobada, mas não vilaboense, também tive os meus bobos da infância: o Hélio Doido, lá de Joviânia; o Popó, o Roldão e a Natalina, todos, rimando, lá de Pontalina. O Hélio, como já diz o sobrenome, e o Roldão eram dos mais bravinhos. O primeiro doido de minha vida me dava beliscões no café da manhã, quando meu pai e mãe punham-no sentado na mesa comigo. Intuía que era ciúme, dele e meu, do pão e afeto paternos repartidos. Ele não era mesmo dos mais mansos – dir-se-ia quase passando da bobice para a doidura – e quando cresceu, quando se tornou o amiguinho do meu sobrinho – os bobos do interior atravessam gerações - aprendeu a fumar e outras tantas porcarias.

O pobre Roldão, para espantar os cachorros e as crianças que latiam, andava com uma matula de pedras. Já o Popó, com seu papo de falta de iodo e jeito inofensivo, inspirava pena e ternura a qualquer um que fosse minimamente humano. E a Natalina, a que catava todas as coisas da rua, acompanhada de sua filha compridona feito lingüiça – bem, para essa, já dediquei uma outra crônica inteira, e tantos poemas-estrelas da vida inteira, como Manuel Bandeira com sua Irene Preta e Marcos Caiado com sua Joana Boba. Sim, todos na vida tiveram os seus bobos e os têm ainda, mesmo que sejam misantropos e só possuam si mesmos para acertar o estilingue. Mas os bobos de Vila Boa, esses são os mais inesquecíveis.

Por Cássia Fernandes, que diz que vai retomar o Almofariz, a convite de Paulo Galvez