Tema da semana: 'Sinais'

sábado, abril 08, 2006

Ética na polética*

Tenho um amigo, que talvez não saiba, intelectual. Não desses da Academia, mas formado pela vida, pela luta diária que é viver nesse país. É um desses de camiseta branca e jeans, barba por fazer e que dá tudo pra não entrar numa briga, apesar de portar uma arma. É um amigo que tem sonhos malucos que não realiza porque precisa ir levando a vida, ora recolhendo cadáveres na lida da delegacia de homicídios, ora ajudando um ou outro.
É um bom papo, intransigente quando se trata de Beatles - a melhor banda de todos os tempos -, mas com idéias inteligentes e fundamentadas sobre muita coisa. Meu amigo tem cara de líder estudantil, mas detesta papo cabeça elitizado. E apelidou quem discute o sexo dos anjos como "ética na polética" - serve tanto como substantivo abstrato quanto concreto. Quer ganhar seu dinheirinho, sair da polícia, voltar à faculdade, correr o mundo ou viver eternamente ao lado de alguém.
Eu, de cá, ouço muito as idéias dele - e ele, também as minhas. E acho que tenho deixado pra trás, cada vez mais, o meu tempo de ética na polética. Tratar da vida como ela é. Isso é o que, cedo ou tarde, vamos aprendendo a fazer. Então, tenho pensado aqui comigo que essa é uma condição natural da vida. Algo como o PCdoB fazer parte de uma coligação com o PFL, se é que me entendem.
Pouco mais de um ano atrás, com a carreira de repórter reconhecido temporariamente abortada por atitude intempestiva - de que não me arrependo, mas talvez não repetisse -, recebo um convite pra produzir um trabalho para um banco, circuito interno de tevê. Uma reportagem sobre a visita a Goiânia do presidente nacional, que seria exibida apenas para os funcionários.
Bom dinheiro, quase 15 dias de trabalho em apenas oito ou nove horas. Trabalho nada fantasioso, dentro da realidade conhecida por todos ali. Mas não pude evitar um certo incômodo, um certo constrangimento, apesar de estar desempregado. Constrangimento que se transformou em surpresa, talvez estranhamento, quando, durante a visita do presidente, pude assistir a uma edição anterior do programa para o qual estava produzindo a reportagem. Os apresentadores nada mais eram do que dois conhecidíssimos jornalistas, que podem ser vistos todos os dias nos principais telejornais da Rede Globo.
Então, pensei: eu, sim, preciso desse dinheiro. Eles, não.
Há alguns dias participei de um seminário sobre ética com Franklin Martins. "Ética não é um código, é uma discussão", disse. E eu, que já estou considerando o jornalismo apenas mais uma simples forma de sobrevivência, como ser dono de um boteco pé-sujo no centro, sem o mesmo prazer, me vejo, novamente, um ética na polética.
Tempos atrás, ao explicar a uma querida e distante, geograficamente, amiga minha vida profissional de pernas pro ar, ouvi que "não seria você se fosse diferente". E chego à conclusão de que, realmente, tenho uma profunda capacidade de readaptação quando me vejo em situações adversas e uma dificuldade quase intransponível de acomodação quando as coisas estão bem.
Mas, se por um lado vejo que não me dobrei completamente, por outro sofro com a falta de objetivos. É por isso que, ainda hoje, lamento não ter voltado ao boteco no setor Universitário pra buscar o pequeno pergaminho esquecido em que uma chinesa, que mal falando português se aventurava pelo Brasil, escreveu, em rápidas pinceladas naquela linguagem imagética deles, o que eu pedi e ainda preciso: Equilíbrio.
Por Paulo Galvez
* Publicado originalmente no Terceiro Caderno