Tema da semana: 'Sinais'

sábado, março 25, 2006

Um dia como outro

Quando acordei naquele dia, mais tarde que de costume, ela já não estava. Persegui seu perfume cítrico pelos cômodos da grande e velha casa. Rafael, o gato, me observava com a pachorra de sempre, do parapeito da janela onde ficava, onde sempre esteve.

Foi uma manhã estranha, porque tudo estava exatamente igual, exatamente no mesmo lugar. Até mesmo o silêncio de quando estava só porque queria estar só.

Então, como todos os sábados, fiz tudo exatamente igual. O café puro, as duas torradas integrais, uma camada de margarina light e outra de geléia de goiaba – manias que vão surgindo com o tempo. Estranhamente, Rafael não apareceu sob a mesa.

No dia em que Soledad desapareceu, a vida continuou inexplicavelmente normal. Como se aquele sábado sempre tivesse sido assim. Da confortável cadeira de balanço da ampla varanda, percebi que o jardim continuava belo e intocado, com aquele agradável cheiro de mato e flores que só os dias de ócio podem produzir. Apenas as maritacas, nos coqueiros, me tiravam do devaneio, daquela embriaguez que provocam as manhãs de sábado de sol.

Se fosse um sábado qualquer, Soledad estaria colhendo flores ou dando banho em Rafael. Depois, sentaria-se a meu lado sem dizer nada, como uma taça de vinho seco ou uma boa dose de vodca com suco de laranja – era sempre ela quem escolhia. Naquela manhã, preferi vodca com menos suco. Era a única diferença de todas as outras.

No horário de sempre, com a manhã indo embora, os micos e esquilos apareceram pra apanhar as frutas e castanhas no tabuleiro instalado na cerejeira. As frutas estavam lá, apenas menos frescas do que o costume porque foram deixadas mais cedo. Nunca entendi por que nossos visitantes vinham tão tarde após uma noite inteira de jejum.

Noite de sexta e madrugada de sábado como todas as outras, de vinho branco e cumplicidade. Notei que havia algo diferente em Soledad, mas só agora percebo que era um brilho a mais nos grandes olhos negros – talvez uma tristeza dissimulada.

Soledad nunca, nem mesmo horas antes, deu qualquer indício de que me deixaria. O bloquinho de anotações, onde deixávamos nossos recados, estava em branco. Em seu guarda-roupas notei a falta de poucas peças, justamente as que ela não gostava, nunca usava.

Soledad foi embora no primeiro sábado do ano, primeiro de janeiro. Nunca comemorávamos essas datas, tínhamos nosso próprio calendário. Nossos feriados eram o dia do primeiro olhar, primeira viagem, primeiro jantar...

Nesses anos todos, nunca tivemos um único desentendimento. Nunca precisamos combinar nada, tudo sempre foi natural como o sol nas manhãs de sábado e o azul-alaranjado dos finais de tarde.

Eu amava Soledad como jamais poderia amar outra mulher. Como se ela fosse a materialização do próprio amor, como se um não pudesse existir sem o outro. Não existia.

Eu jamais imaginei deixar Soledad e, sei eu, ela também jamais pensou me abandonar.

Por isso, o sábado em que Soledad foi embora continuou exatamente igual.
Por Paulo Galvez