Tema da semana: 'Sinais'

quarta-feira, março 15, 2006

Só para variar

Se a rotina tem uma cor ela é amarelo-pálido, como a parede desse quarto. E, talvez seja apenas minha retina, mas parece que cada dia está mais amarelo e pálido. Não a parede, a rotina. É que de tanto fazer tudo mecanicamente igual, sem o elemento surpresa, frio na barriga, 'borboletas no estômago', banho de chuva de verão, presente sem data, sem errar o caminho, sem novidade, sem desafio, fica tudo tão chato, que a vida vai perdendo a cor. Desbota. Não como a rotina, como a parede mesmo.

Mas, hoje, só para variar, vou sair em busca de todas as cores do mundo. Das frias e das quentes. E vou misturá-las até achar um novo tom só para pintar a parede. Quer dizer, uma parte da parede, porque noutra vou pintar de vermelho vibrante. E noutra vou colar desenhos feitos por crianças, noutra vou deixar minhas impressões digitais e, por fim, vou escrever na parede - como fazia o poeta Gentileza - essas 'bobagens'que ninguém lê, mas que apenas eu entendo. Assim, só para variar.

Daqui a pouco, antes do relógio despertar, também só para variar, vou inverter a lógica do meu acordar. Desliga despertador. Só mais cinco minutinhos. Já se foram quinze minutos. Pula da cama. Abre o guarda-roupa. Escolhe uma roupa. Vai para o banheiro. Volta para o quarto. Pega a toalha. Banheiro, de novo. Toma banho. Sai correndo. Veste a roupa. Não ficou boa. Troca a roupa. Não ficou boa. Vai essa mesmo. Corre para cozinha. Abre a geladeira. O que tem pra comer? O de sempre. Iogurte com granola. Volta para o quarto com a tigela na mão. Onde deixei o celular? Pega a bolsa. Vai para a porta. Volta no quarto. Pega a tigela, leva para a cozinha. Vai para a porta. A chave? Volta para o quarto. Procura a chave. Olha na estante. Olha debaixo da cama. A chave, como sempre, está ao lado da televisão. Vai para porta. E, enfim, a rua e o dia que, não por acaso, é amarelo-pálido.

Só que, como disse, para variar vai ser assim: Antes que o relógio grite, vou desligá-lo. E vou me espreguiçar como nunca faço. Abrirei a janela e falarei bom dia para a primeira pessoa que avistar. Pouco me importa se ela responder, porque, só para variar, o dia para mim já vai ser bom como há tempos não é. Vou deixar o banho para tomar depois. Primeiro vou fazer um suco de laranja e sanduíche de queijo quente, usando aqueles aparelhos que ficam escondidos no fundo do armário. E, em seguida, vou tomar café de pijama, calmamente, lendo uma crônica do Rubem Braga.

E se é para variar, então vou pegar aquela roupa que há tempos não uso para vestir. E vou para o banho, levando não só minha toalha, mas aquele roupão felpudo que só uso em dias frio para tomar chocolate quente e fazer tipo. Ligarei a televisão e vou comer meio mamão papaia. Depois vou trocar de roupa, não sem antes passar todos aqueles cremes para isso e aquilo que nunca dá tempo de usar corretamente. Vou arrumar minha bolsa, me lembrar do celular, pegar a chave, abrir a porta, respirar, ganhar a rua e um dia lindo. Só para variar, entende?

Então, depois de um bom começo de dia, vou sair variando como uma desvairada. Vou a pé para o jornal, porque - fato inédito - terei tempo para isso. E olharei tudo o que estiver pelo caminho como se nunca tivesse visto. Ou como estivesse vendo pela última vez. Melhor: verei tudo como se fosse a primeira e a última vez, para deixar intactas na memória as imagens do dia que eu tirei para variar.

Quando passar por aquele senhor que está sempre cuidando da jardineira da ponte, não apenas falarei bom dia dando um sorriso. Esse meu risinho amarelo-pálido, embora seja sincero, deve irritá-lo por se tão habitual e previsível. Então, só para variar, vou parar ao lado dele. E enquanto o vejo aguar a planta, vou puxar assunto falando do tempo e, conversa vai-conversa vem, de repente, até consigo soltar uma gargalhada espontânea para me redimir de todos os sorrisos amarelos-pálidos que lhe dei. Bom será se ele também conseguir sorrir.

Para variar, toda a vez que me lembrar de algum amigo, não vou me permitir apenas sentir saudade. Vou matá-la com um telefonema e escutar, como uma música reconfortante, a voz do outro lado. Só pra variar, ligarei para meu pai no meio da tarde para dizer que o amo tanto que às vezes não sei dizer. E, para minha mãe, para confessar que eu sempre quero colo. Para meus irmãos, vou ligar para saber se, apesar de tudo e sobretudo, eles estão lá, pois isso - em alguns momentos - é o que dá segurança aqui.

E para fazer diferente, vou-me permitir amar qualquer desconhecido - ou conhecido, quem sabe. Vou fazer declarações de amor e, talvez, até loucuras. Mas, só para variar. Conhecerei num só dia o dobro de pessoas que conheci a minha vida inteira e ouvirei todas suas histórias. Vou trocar o ar blasé pelo encantamento. Qualquer um, que seja. E correrei pela rua só para sentir o vento que anuncia a chuva no meu rosto e abrirei os braços para abraçar o mundo. Quem foi que disse que não consigo?

Eu vou me arriscar. Eu vou tentar a sorte, mesmo sabendo que posso perder, mas tendo certeza que também posso ganhar. Eu vou me dar flores. Eu vou me dedicar um poema. Eu vou pintar uma aquarela (chega de amarelo-pálido!). Eu vou flutuar. Eu vou me lembrar de mim. Eu vou fazer tanta coisa... Porque hoje eu decidi variar. Só para ser feliz.

Por Jussara Soares