Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, março 16, 2006

A Coragem para mudar a rotina

Acordar cedo e 'inventar' o que comer no barraco da periferia da grande cidade são as primeiras tarefas do dia de Maria da Glória. Há anos, quando deixou a zona rural do estado com Geraldo, o marido, e os dois filhos, não era com isso que ela contava. O casal fôra expulso do campo pelo agronegócio. A terra onde trabalhavam foi parar nas mãos de uma multinacional do ramo da celulose. Ao invés de trabalhadores e trabalhadoras produzindo, hoje se vê apenas mares de eucaliptos plantados em toda aquela região. Os lucros para a empresa são astronômicos. Os empregos para o homem - e a mulher - do campo, no entanto, desapareceram. Chega-se a ocupar 183 hectares de terra com apenas um emprego gerado.
Maria da Glória não tinha muita opção. O irmão mais velho ainda argumentou:
- A vida na cidade é difícil. Vamos nos organizar por aqui, não vamos nos dar por vencido assim. Precisamos da terra, lutaremos por ela.
Por mais que ouvisse Waldemar, o irmão que funcionou a vida inteira como um segundo pai, Glorinha, grávida da primeira filha, acompanhou Geraldo para a Grande Porto Alegre. Lá ele seria trocador. Rodoviário, gostava de dizer. Ia ganhar a vida cruzando a cidade, enquanto Maria da Glória cuidaria das crianças - Giovana, que já estava a caminho, e quantas mais viessem.
- Na cidade as chances são melhores Glorinha. Chega de acordar de madrugada para plantar na terra dos outros. Vamos atrás do que é nosso.
A esperança marcou os primeiros meses, anos até, da família de mãos calejadas na cidade grande. Geraldo logo foi fichado em uma empresa e passou a trabalhar em linhas urbanas. Glória cuidava da menina e realizava o sonho da maternidade.
Pequenos detalhes da vida urbana deixavam Geraldo com a estima em alta: carteira assinada, cartão de ponto, crachá com foto e nome. Passou a se sentir gente. E ainda podia andar de graça nos ônibus para ir ao Beira-Rio assistir ao Internacional, paixão que herdou do pai. Quantas vezes chorou ao imaginar estar nas arquibancadas ao lado do velho, assistindo às epopéias de Figueiroa, Falcão e Valdomiro.
Maria da Glória, aos poucos, foi perdendo o encanto com a grande cidade. Depois de Giovana, deu à luz Geraldinho. Passava os dias cuidando dos garotos, morrendo de saudade da roça. Sentia-se diminuída. Não tinha como ajudar o marido a sustentar a casa. Engolia seco e não era de reclamar. Evitava aborrecer o companheiro. Se bem que Geraldo já não fazia por merecer este título. Passou a andar estressado com a violência na capital. Virava e mexia era assaltado. Passou a exagerar nas doses de conhaque que sempre gostou. Humilhado na rua descontava em casa. Apanhava do mundo e reagia nas costas de Maria da Glória. Não se importava nem mesmo se as crianças viam as agressões.
Com o tempo, além do cheiro de bebida, chegava em casa com cheiro de mulher. Na frente dos guris, Glória apanhou uma, duas, três vezes. Chega. Glorinha se deu um basta. Naquela manhã não ia mais cumprir a rotina submissa dos últimos tempos. Ainda deu uma olhada nas cartas enviadas por Waldemar. O irmão mais velho nunca aceitara o destino como algo pronto, acabado. Na pequena cidade onde foram criados, foi sempre visto como 'agitador' pelos donos do poder.
- Temos é de lutar para mudar esta realidade. Não somos miseráveis porque Deus quer e nem Ele quer que sejamos felizes só no céu. Ele nos deu o livre arbítrio. E é com ele que eu luto, costumava dizer nas missas que ajudava a celebrar na comunidade.
Lembrando de Waldemar, Maria da Glória chorou. Mas teve forças para pegar Giovana e Geraldinho e embarcar na rodoviária. No fim da tarde os guris conheceram o tio no barraco do assentamento que, por enquanto, é a nova morada do trio. Maria sorriu ao ver três fotos no barraquinho do irmão: a dos pais já mortos, um quadro improvisado com a onipresente foto de Alberto Korda com o busto de Che Guevara e, claro, o pôster do Inter de 1979. "Ele e Geraldo, ao menos com o Colorado em campo, são iguaizinhos".
Logo ela se inteira das tarefas do assentamento. Mais solta, mais senhora do seu destino, Maria da Glória fala, debate, convence e é convencida nas assembléias. Mais do que nunca, Glorinha é uma cidadã. Ela é uma das que defende uma agenda diferente para este 8 de Março. Na véspera, nem dorme. Pela primeira vez vai voltar às terras em que aprendeu a plantar. Ela vai ocupar a Aracruz Celulose, a multinacional que destruiu os empregos e expulsou Glórias, Marias e Clarices do campo para se humilharem na grande cidade. Quando chega à fábrica sente medo. Mas basta olhar em volta e ver que até aonde a vista alcança só tem eucalipto - nenhuma outra cultura, nenhum emprego para o trabalhador rural - para se encher de coragem. Maria da Glória chora. Mais tarde, na televisão, o Brasil inteiro vai conhecer Glorinha. Os editoriais da grande imprensa vão criminalizar esta gauchinha que não aceitou o destino imposto pelas circunstâncias, pelo grande capital. De um escritório luxuoso em São Paulo alguém, em nome da Aracruz, vai falar em "violência desmedida". A vida de centenas de Glórias nunca deu uma pauta, uma linha sequer. Hoje, ela vai dormir em paz consigo mesma. Benditas sejas, Glórias, Aparecidas, Clarices e Marias que ousam lutar para mudar suas rotinas.
Por João Henrique