Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, março 30, 2006

Ah,o frango com quiabo...

Vassouras teve um prefeito cozinheiro. Nordestino, negro, nascido em Alagoa Grande, na Paraíba, foi com o talento com os temperos e as panelas que Severino Dias venceu na vida. Cozinheiro qualificado, chegou a maitre do grupo Manchete. Paparicado por Adolpho Bloch, se tornou íntimo de diversas personalidades que atuavam com ele. Desenvolto, carismático, foi logo se tornando amigo de políticos que costumavam freqüentar as empresas de um dos grandes da comunicação brasileira. Entre suas folgas no Rio, conheceu Vassouras a convite de uma moça bonita que se tornara atriz de fotonovela. Sétimo Céu ou alguma coisa assim — os mais novos que não se assustem, mas eu juro que, não faz muito tempo, o brasileiro gostava muito de fotonovelas. Ângela acabou sendo um passaporte para Severino freqüentar Vassouras. Entrou na política — e se elegeu prefeito.

Mas não é da vida de Severino Dias — que dá um livro — que quero escrever. Nem da morte, que até hoje carece de uma solução da briosa polícia fluminense — o assassinato que chocou Vassouras em 1995 ainda não foi esclarecido. O governo do carismático e polêmico Severino Dias coincidiu com a minha entrada do jornalismo. Garoto, escrevia meus artigos e fazia minhas primeiras entrevistas na redação da Tribuna do Interior. Tive a oportunidade de entrevistar Severino algumas vezes. Em uma delas preparava um perfil do prefeito. E não pode evitar uma pergunta lugar-comum: qual seria o prato preferido do cozinheiro talentoso que chegou à prefeitura? Severino não pestanejou: frango com quiabo.

A resposta não me surpreendeu. Homem de hábitos simples, apesar do cargo importante, das amizades influentes, Severino foi sincero. Lembro que, na redação, alguém ainda me disse. “O cara cozinha de tudo, é especialista em pratos franceses, faz um monte de coisa sofisticada para aquelas celebridades do Rio, dirigiu dezenas de cozinheiros de primeiro time da Manchete e gosta mesmo de um frango com quiabo? Não falou que é com uma pinguinha de abrideira não, João?”. Isto eu não perguntei, claro. E nem precisava. Amante das boas coisas da vida, é óbvio que Severino dava um tapa na marvada antes de ir para o prato principal.

Apenas me viro na cozinha, não conheço pratos requintados da alta culinária e nem consigo imaginar o que Adolpho Bloch pedia para Severino preparar nas grandes recepções a Chefs de Estado, artistas de todo o mundo e personalidades do jet set que freqüentavam a sede das empresas Bloch na Praia do Flamengo. Mas devo admitir: Severino entendia das coisas. Chego a salivar ao lembrar dona Zelina, minha avó, na cozinha preparando o seu maravilhoso frango com quiabo. Com angu e azeite, me deixava no céu.

E o frango com quiabo é apenas uma das maravilhas da cozinha mineira. Quem pode resistir a um leilão a pururuca, uma rabada com agrião ou uma simples porção de torresmo com uma Brahma gelada no pé sujo da esquina? Ou quem sabe uma porção de língua, bem acebolada, com direito a molho e pão francês? A cozinha mineira é tão maravilhosa que até um prato de plástico servido em um estádio de futebol pode ser inesquecível. Em 1995 fui ver o Flu jogar contra o Atlético, em Belo Horizonte. Voltei classificado para as semifinais do Campeonato Brasileiro e apaixonado pelo feijão tropeiro servido no Mineirão.

O leitor deve estar se perguntando: mas o assunto da semana não é pão de queijo? Pois é, com tanta maravilha na cozinha das Minas Gerais eu não consigo entender como é que uma coisa tão assim assim, tão mais ou menos, foi ter tanto destaque. O governo do último mineiro que chegou à Presidência chegou a ser batizado de República do Pão de Queijo. No Orkut, aquele maluco site de relacionamentos da internet, mais de um milhão de pessoas participam de comunidades que homenageiam o tal pãozinho. Sem medo de ser linchado, vou logo avisando: sou mais a broa de milho.

Por João Henrique