Tema da semana: 'Sinais'

Segunda-feira, Fevereiro 27, 2006

Meu Trauma

Traumas de infância. Não é um assunto que gostemos de falar. O assunto vira um tabu. É daqueles que escondemos dentro de uma caixa, no fundo do fundo da gaveta mais escondida do armário cuja porta trancamos e jogamos a chave fora. Mas a caixa ainda está lá, dentro da gaveta, no fundo do armário. Sempre estará lá. E não venha dizer que psicólogo resolve, que ele vai abrir a caixa e “puf”... Os traumas somem, as marcas desaparecem num passe de mágica. Não. Nem quando você mesmo identifica o porquê de um determinado comportamento, ele tende a desaparecer rápido. É uma briga interna constante, uma avaliação a cada vez que ele emerge em forma compulsória e contumaz.

O trauma acabou gerando uma compulsão, difícil de domar até hoje. Jamais poderei falar que ganhei a guerra, mas estou aprendendo a comemorar pequenas batalhas. Vou explicar minha luta:

Minha infância foi igual a da grande maioria dos brasileiros, onde uns poucos brinquedos e roupas novas eram artigos de luxo para nós. Meu pai, quando eu era pequena, era o único a trabalhar em casa. Na época somávamos nove pessoas: meus pais, meus três irmãos, eu, meus avós paternos e meu tio. Foi um período difícil até meus irmãos começarem a trabalhar.

Minha mãe conta até hoje que sua irmã, bem de vida na época, chegava aos domingos em casa, bem vestida e perfumada, dizendo que viera somente fazer uma visita, pois iam almoçar num restaurante. Minha mãe conta que tinha vergonha dessas “visitas” porque sempre estava usando “trapos” no lugar de roupas. As filhas, quando não queriam mais um vestido, uma blusa, faziam a sacolinha e “despejavam” em casa para que nós nos fartássemos de suas vestes batidas. Outra coisa que magoava D. Cida era o seu filho, comprando roupa usada em brechó.

Outra tia também fazia sua sacolinha de misericórdia e nos dava. Como eu odiava aquilo! Tem uma foto perdida por aí em que estou usando exatamente essas roupas. Tenho vontade de rasgá-la toda vez que a vejo.

Outra passagem marcante foi quando fui à padaria, com minha querida Caloi, buscar pão. Já estava vestida para a escola quando encontrei uma colega. Ela olhou minhas vestimentas (que eu achava as melhores) e soltou a frase, de chofre e com a voz antipática: “Você vai asssimmmm na escola??”. Voltei para casa no mais puro desespero. Se aquela era a melhor roupa que eu tinha, com qual ir á escola, então? Chorei muito à frente de um guarda-roupa de duas portas onde sempre sobrava espaço.

E foi aí, devido a essa ojeriza por roupas usadas, que teve início minha compulsão. Comecei cedo. Com meus irmãos já formados iniciei as longas peregrinações às lojas. Aos 14, 15 anos já fazia crediário. Escolhia as roupas, minha mãe ia comigo para abrir a ficha e eu pagava em prestações usando minha mesadinha. Mal acabava de pagar um lotezinho de roupas iniciava outro. Tentei reduzir os custos fazendo um curso de corte e costura e produzindo minhas próprias roupas ou reformando as que tinha. Passava horas no quartinho brigando com a Elgin da minha mãe.

Quando comecei a trabalhar, o pouco que ganhava gastava tudo na José Paulino, uma rua de confecções e comércio de roupas. Uma vez por mês lá estava eu, batendo as lojas em busca de novidades. Passávamos a tarde toda lá, eu e minha mãe. Bastou eu ganhar mais para mudar a rotina. Ao invés de ruas, ia ao Shopping Center Norte, o maior de São Paulo. E sim, uma vez por mês. E sim, de novo, lá ia meu salário todo em roupas. Chegava ao cúmulo de comprar duas blusas idênticas, em cores diferentes. Até hoje, ao arrumar o guarda-roupa, encontro uma blusa, um calça que nem lembrava que tinha. Fora as roupas compradas e que nunca usei.

Com o Leonardo não foi diferente. O enxoval que fiz para ele daria muito bem para dois filhos. Roupinhas novas foram dadas quase sem uso. Mas isso era o que importava para mim: que eu desse, mas JAMAIS recebesse.

Não vou dizer que meu trauma está morto. Eu o coloco do nível de “controlado”, pois já consigo, como disse no início do post, segurar o impulso de comprar roupa nova. Não é fácil. Martirizo-me passando pela loja e olhando, às vezes até experimento para testar minha força de vontade.

Mas não há como não sentir-me segura ao entrar no quarto e saber que nas 5 portas (de 6 no total) e nas 13 gavetas (de 15 ao todo) há roupa suficiente para que eu não precise mais ganhar alguma usada.


Por Sandra Pontes