Tema da semana: 'Sinais'

domingo, fevereiro 12, 2006

Lino e a Encantadora de Falanges

Lino era um rapaz moreno, alto, bonito e sensual. Talvez, a solução para o seu problema. Além dos dotes físicos, era inteligente e sensível. E ainda por cima escrevia bem e conquistava a mulherada com lindos poemas de amor.

Lino parecia perfeito, mas uma observadora mais atenta e detalhista logo notava que algo faltava em sua mão direita: uma falange do dedo médio. A falange se foi para todo o sempre ainda na adolescência, numa manhã de domingo, quando Lino ajudava a mãe a picar tomates frescos com uma faca Ginso para a macarronada do almoço do dia dos pais. Ficou tão traumatizado que durante anos e anos usou luvas até sob o sol do Senegal. Diante do primeiro sinal de "perigo", enfiava a mão no bolso da calça, discreta e automaticamente. Cigarros e copos só segurava com a mão esquerda.

Lino gostava de jogar boliche. Praticava o rolar da bola de ferro semanalmente. Porém, a falta da fração do dedo atrapalhava o perfeito manuseio da bola. Como não tinha nenhuma habilidade com a mão esquerda, descobriu e desenvolveu uma técnica inédita que o tornou campeão intergaláxico do esporte, colocando coreanos, japoneses e marcianos no chinelo.

Se no boliche a dificuldade tinha se transformado em vantagem, o mesmo não acontecia em outras situações. Lino demorava cerca de uma hora e meia para escrever um e-mail de tamanho médio (a ausência da fração do dedo complicava o processo). A mão dele não alcançava mais o CD player do carro, enquanto dirigia. De modo que, quando viajava sozinho, preferia ouvir o mesmo CD quantas vezes fossem necessárias a correr o risco de capotar na estrada. Quando alguém o irritava e ele devolvia a provocação com aquele indefectível sinalzinho com o dedo em riste, ninguém levava a sério e o pobre Lino virava motivo de chacota, chiste, pilhéria.

A despeito da falta do teco do dedo médio, Lino era um conquistador. Um conquistador barato. Distribuía poemas de amor para as mulheres. Elas caíam aos seus pés. E por mais que as moças insistissem e algumas até fizessem por merecer, Lino não liberava o coração vagabundo para nenhuma delas. Quanto mais ele resistia, mais despertava a curiosidade e obsessão da mulherada. Ninguém entendia a razão da sonegação.

Eis que um dia, Lino passou a circular por aí com sua antiga namorada da adolescência, Maria. Apaixonadíssimos, reataram o relacionamento infanto juvenil depois de 15 anos e resolveram se casar. A notícia provocou pavor, pânico, desespero nas mulheres, cujos corações estavam em frangalhos. Não se conformavam. Como Maria tinha conseguido a proeza de atingir o coração vagabundo do vagabundo?

A estratégia de Maria não tardou a aparecer. Há 15 anos, ela participava do fatídico almoço de dia dos pais, quando Lino perdeu o teco do dedo, decepado pela faca Ginso assassina. Todos os presentes ficaram tão apavorados com o ocorrido que nem se deram ao trabalho de procurar pela falange perdida. Maria embolsou o teco do dedo do namorado e o conservou numa caixinha climatizada, própria para frações de corpos humanos, durante todo esse tempo. Quando tomou um pé na bunda do vagabundo, se lembrou do pedaço de dedo que havia seqüestrado. Sabia que lhe seria útil. Não teve dúvida: aplicou sobre ele todas as simpatias que aprendeu no site do João Bidu e nos programas da Ana Maria Braga, do Clodovil, da Claudete Troiano e da Kátia Fonseca. Das amigas ganhou o apelido de Encantadora de Falanges. Pacientemente, esperou quase quinze anos para que seus trabalhos surtissem algum efeito. E, finalmente, o cobiçado coração do solicitado Lino era dela. Só dela.

Lino nem desconfiava do seqüestro e da cruel manipulação da fração do seu dedo. Estava entorpecido pela combinação das 33 bruxarias feitas por Maria. Só havia uma forma do feitiço se desfazer: caso se deparasse com uma faca Ginso, Lino recuperaria imediatamente a consciência.

Foi na madrugada da véspera de reveillón. Lino se levantou no meio da noite para tomar água. Na cozinha, tateou a parede, na busca pelo interruptor. Ao acender a luz, avistou o reluzente objeto sobre a pia. As lembranças invadiram sua mente, sua fisionomia assumiu contornos malignos. Caminhou lentamente até ela. Observou a maldita Ginso, responsável pelo seu sofrido trauma da adolescência. Acariciou o objeto com um prazer mórbido. Voltou-se para trás, faca em punho. Arrastava os pés, rangia os dentes. Parou na porta do quarto. Avistou Maria, que dormia angelicalmente. Aproximou-se da mulher, olhos fixos naquela pequena e perfeita mão direita. Sem dó nem piedade, num único golpe, decepou quatro dedos. Antes mesmo que Maria conseguisse gritar, finalizou o serviço, cravando a Ginso no meio de seu peito. Sorriso cínico nos lábios, Lino deitou-se e voltou a dormir o sono dos justos.

Por Verga Lião, convidada especial.