Tema da semana: 'Sinais'

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Amor de Carnaval

Foi num baile de carnaval que se conheceram. Início dos anos 50. O salão do Clube de Campo da cidade do interior totalmente decorado, aguardando seus sócios e convidados. A banda, já postada no palco aguardava a abertura das portas para iniciar mais um baile. Chevrolet Mercury e Buick dividiam com Roadmaster, Pontiac e Ford os espaços do estacionamento.

E num Pontiac Maria Helena chegou. Menina ainda, acabara de completar 18 anos. Seria seu primeiro baile de carnaval. Veio acompanhada da família. O pai, prefeito da cidade e um dos sócios mais privilegiados, fazia parte também do conselho do clube. A mãe, primeira-dama, era ativamente envolvida com a alta sociedade. Maria Helena não era ligada nem aos compromissos do pai, muito menos aos da mãe. Filha única, gostaria de estudar, se formar, ter sua vida. Os pais já imaginavam outro futuro para ela. Pretendiam um casamento com alguém de suas relações, um rapaz de boa família e com aspirações políticas.

Mas Maria Helena não queria saber de casamento. Ao menos àquela noite. Queria dançar, se divertir com as amigas. Entrou no salão ao som de “Chiquita Bacana”, seguida de “Pierrô Apaixonado”. Aproximou-se do palco para ver melhor a banda e foi quando o notou. Um rapaz alto, bonito, no centro do palco puxando as marchinhas. Seus olhares se cruzaram e não se desviaram mais. Num intervalo, Maria Helena aproximou-se discretamente do rapaz e acabaram conversando um pouco. Soube que ele morava em São Paulo, mas viajava sempre cantando em bailes, festas.

Foram 4 noites assim. Waldomiro cantando e Maria Helena aproveitando os poucos minutos que tinham para conversar. Na terça-feira à noite o baile acabou exatamente à meia-noite, um costume da época. Na quarta à tarde se encontraram pela última vez, na porta da igreja. Despediram-se e, meio na brincadeira, combinaram de se encontrar no ano seguinte, no baile.

Passa-se o ano de 1951 e chega 1952. Com ele, mais um carnaval. Maria Helena entra no clube de braço dado com um rapaz: seu marido. Evita olhar no palco, mas a curiosidade a vence. Procura por Waldomiro e o encontra no mesmo lugar. Porém ela já não pode mais conversar com ele. Waldomiro e vê, da mesma forma que vê o rapaz e as alianças. Disfarça, continua cantando, mas a tristeza toma conta dele. Foi a última vez que Waldomiro cantou ali. No dia seguinte, logo cedo, retornou a São Paulo de onde, sentiu, nunca deveria ter saído.

Os anos se passam. Maria Helena enviúva, após 16 anos de casamento e três filhos. Muda-se para São Paulo à pedido dos dois filhos mais velhos, que cursariam a faculdade na capital. A mais nova – Margareth - ainda no colégio, acompanha a família.

Os filhos se formam, casam. Até a caçula se ajeita na vida. Maria Helena vai levando sua vidinha, cuidando dos netos.

Em 2005, Margareth faz um pedido a Maria Helena:

- Mãe, eu e o Jorge iremos até a Vai-Vai fazer a prova das fantasias e ensaiar os passos da nossa ala. Vamos conosco?

- Filha, eu não tenho mais idade para isso... Já estou com 72 anos.

- Mãe, deixa de ser boba! Vai ficar em casa de novo? Você nunca sai... Vem, por favor.

- Pedindo assim... Eu vou.

À noite, Maria Helena chega à quadra da escola. É apresentada a inúmeros amigos da filha e do genro, inclusive ao conselheiro da escola, o antigo puxador dos sambas-enredo que, já idoso, afastou-se para a nova guarda de sambistas: Waldomiro.

Maria Helena reviveu 1951 em questão de segundos. Waldomiro também se lembrou dela. E conversaram como se 54 anos nunca os houvesse separado. Ali descobre que Waldomiro nunca se casou.

Este ano Maria Helena estará, não na arquibancada do sambódromo, mas na concentração, ajudando a preparar a escola para o desfile ao lado de Waldomiro. Apesar da idade, convenções e preconceito estão namorando e pensando em casar.



Por Sandra Pontes