Tema da semana: 'Sinais'

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

Visões

Eu tinha 9 anos. Acordei naquela noite e lá estava ela parada, olhando para mim. Devia ter a mesma idade que eu. Usava uma jardineira jeans e camiseta com riscos coloridos, daquelas tão comuns no início dos anos 80. Cabelos castanhos longos e muito lisos, e franja, e um sorriso. Tudo muito normal, eu diria. Apenas duas coisas me faziam pensar: como esta menininha tinha entrado na minha casa no meio da madrugada e como ela conseguia desaparecer no ar quando eu falava com ela. Tive encontros assim com esta mocinha até os 14 anos de idade, e sempre gritei pela minha mãe.

Falando nela, eu sempre ouvi a frase “filho, você também está ouvindo?”. E sempre respondia que estava, afinal assobios e o barulho de coisas que se quebram arremessadas na parede são difíceis de ignorar, assim como os vultos e sombras que percebíamos parados na porta de nosso quarto.

Com 15 anos ganhei meu próprio quarto e, como não poderia deixar de ser, detestei. Foram meses sem ter coragem de enfrentar o escuro, e nem toda a luz do mundo foi capaz de evitar que pessoas passassem flutuando de uma parede a outra, como se eu não estivesse ali. Outras vezes, elas tinham o estranho hábito de ficarem paradas me olhando, como que esperando para ver em quanto tempo eu iria gritar.

Cresci e o medo foi diminuindo. Já não grito mais, mas o fogão ainda acende sem que ninguém esteja perto e os vultos continuam pela casa. É freqüente que os vejamos entrando pela porta ou caminhando de um cômodo a outro. Homens, mulheres, crianças...

Outro dia acabou a energia elétrica e tive que ficar no quintal, mesmo com chuva, porque o barulho de pessoas correndo nas escadas era forte demais, além das batidas nas portas e risos. Nossa cadelinha de estimação ainda não está acostumada, e é comum que, após latir freneticamente para o “nada”, venha esconder-se debaixo das minhas pernas.

Baseado nisso tudo eu confesso: estou escrevendo este post com a luz do quarto acesa e a porta aberta, e não tenho a menor vergonha disso.

Por Marcos Donizetti