Tema da semana: 'Sinais'

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Traições

Lá estava ele, novamente, naquela estrada.

Odiava a promessa feita à mãe, de visitá-lo. Não conseguia entendê-la. Ela estava bem, livre e feliz. Para quê isso?

Com este pensamento as lembranças voltaram. Em cenas picadas, rápidas, em widescreen.

O pai, homem astuto e ganancioso, aos poucos foi minando o sócio e amigo na empresa de transportes que tinham. O pobre sócio foi morrendo em vida, traído e sem dinheiro.

Suicidou-se 5 meses após o golpe, enterrado em dívidas que seu “amigo” deixara de presente.

Depois do sócio, foi a vez da família. A mãe, sempre dedicada e boa esposa. A mulher, que suportou seu mau humor, grosseria e críticas, largada como um pano de chão usado!

Apertou o volante. Queria voltar. Mas a promessa...

Lembrou-se do dia em que flagrou o pai aos beijos com a nova recepcionista. A risada sarcástica e a previsão de que ele também faria o mesmo, afinal, era homem!

Mas o mais doloroso foi quando ele saiu de casa. De malas prontas e com um sorriso nos lábios avisou que iria começar uma nova vida.

Disse à esposa que manteria o filho na empresa, mas que não esperasse mais nada dele. Nem dinheiro. O que pagaria de salário ao filho seria suficiente para ambos.

Ele chorou. Ela não. Somente um pedido: Continue ao lado dele.

Alguns anos se passaram até os primeiros sinais.

Algumas frases desconexas, esquecimentos, agressividade súbita.

Mas os sintomas foram se intensificando e complicando. Os transtornos emocionais e de comportamento, sem conseguir andar por causa do enrijecimento das articulações, a dificuldade para engolir alimentos.

Diagnóstico: Mal de Alzheimer.

Não havia outra solução além de um asilo.

E era exatamente para lá que estava indo. Visitar o pai.

Ao chegar o viu sentado numa poltrona, na varanda da casa. Sabia exatamente o que passaria na próxima hora.

Ele não o reconheceria ao primeiro olhar. Depois se lembraria dele como criança.

Então viriam as acusações. As palavras de que havia sido traído, jogado naquele buraco para apodrecer.

As palavras de acusação como se ele e a mãe fossem os culpados.

Ele não lembrava que “ele” é quem os tinha traído, enganado. Ludibriado o amigo, abandonado a família.

Já sentia correr nas veias o rancor, a mágoa a raiva e invariavelmente a pena, a sensação de piedade que lutava para esconder dele mesmo.

Saiu do carro.

Respirou fundo e caminhou lentamente em direção ao velho.

Parou bem perto, respirou fundo mais uma vez.

- Oi, pai...


Por Sandra Pontes