Tema da semana: 'Sinais'

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Tirem-me o cartão de crédito!

Acordei determinada: a partir de hoje saberei onde e como gastarei cada centavo do meu suado dinheirinho. Assim mesmo no diminutivo, porque ele é tão pouco que se disser dinheiro ele não se reconhece como tal. Enfim, a questão é que após ler uma reportagem na Você S.A estou motivada a me tornar uma pessoa de invejável saúde financeira, que não cede aos desejos mundanos do consumo e cujo dinheiro, digo, dinheirinho é controlado, mas rende. Um verdadeiro milagre econômico!

Em pensar que meu antigo lema "dinheiro a gente gasta até o último centavo e depois ganho outro" quase me levou à bancarrota. Se não fosse essa reportagem logo estaria imersa num oceano de contas a pagar, fugindo dos credores, quebrando cartões de crédito numa cena de total desespero, inventando desculpas para não atender o gerente do banco e teria me tornado refém das multas e juros. Só por causa disso vou fazer uma assinatura da Você S.A. Veja bem, isso não é um gasto. É um investimento que trará para minha vida crescimento econômico. Em breve estarei ensinando a Pallocci com quantos centavos se paga dívidas e faz fortuna.

Como ainda não tenho dinheiro para pagar à vista, vou usar o cartão de crédito para fazer a assinatura. Isso é uma necessidade, ou seja, não há nada que desabone minha conduta de consumidora consciente. Também vou aproveitar uma daquelas promoções imperdíveis que eles fazem para quem assina mais de duas publicações. Um excelente administrador financeiro sabe aproveitar as oportunidades de negócios.

Outro mandamento é anotar todos os meus gastos. Da água ao aluguel tudo será registrado na minha nova agenda verde fluorescente que acabo de comprar no Sider Shopping. Ela é linda e ainda vem com uma bolsa de tecido estampada. Uma coisa! E tudo isso, pasmem, pela bagatela de R$ 65,00 divididos em duas vezes no meu cartão de crédito. Agora, já tenho onde detalhar os gastos que não terei e ainda uma bolsa nova. Sei não, estou achando que deveria prestar consultoria sobre esse assunto...

Mas, olha que saia linda! Vai ficar perfeita em mim. E é exatamente a que estava procurando há um tempão para usar com aquela blusa que comprei três anos atrás da minha amiga que vende roupas de Petrópolis. Mas não posso gastar, certo? Errado. Um grande gestor econômico também costuma contar com a sorte e é isso o que está acontecendo comigo agora. Se a vendedora sorrir para mim, entro na loja pelo menos para saber o preço.

(Minutos depois...)

Então, a vendedora era uma simpatia. Sorriu pra mim, acredita? Ela se chama Jaqueline e até incluiu meu nome na lista de clientes preferenciais da loja. Não bastasse isso tem um talento natural para personal stylist. Com as sugestões dela e com as peças que adquiri, dei uma repaginada no meu visual. Além da saia (R$ 98), levei também - tudo em três vezes no cartão e, o melhor, sem juros - uma camiseta verde e amarela para usar no jogo do Brasil x Japão na Copa do Mundo (R$ 35), um vestido igualzinho ao que a Cláudia Abreu usa na novela (R$ 135), uma calça número 38 que ainda não me serve (R$ 168) e uma blusa que combina com a calça que em breve estarei vestindo (R$75). Até porque aderi a um programa de emagrecimento maravilhoso com uma amiga da Jaqueline. Trata-se de um shake que faz você perder até oito quilos em um mês. É um kit que vem também com umas pílulas, gel redutor e uma fita métrica para verificar as medidas (R$ 160: cheque para trinta dias).

Depois aproveitei minha passadinha no shopping para dar uma conferida nas novidades em sapatos. E estava mesmo com sorte: minha sapataria preferida estava em liquidação. Comprei dois pares de sandália, uma sapatilha, um tênis e um scarpin por uma questão de bom senso. Tive trinta por cento de desconto na compra e levei tudo por R$ 455.

Por um instante quase me arrependi das comprinhas, mas eu ainda não havia gastado com nada supérfluo e me lembrei do que diz o Visa: "Porque a vida é agora". Não havia porque me culpar. Além disso, trabalho pra me dar o direito de pequenas alegrias. São tantos problemas no dia-a-dia, decepções e stress que mereço uma compensação mínima. Mínima, sim, caso contrário tinha me dado uma viagem para Nova York levando na carteira um cartão de crédito sem limite e na mala um casaco de pele...

Ai, isso me deu uma depressão. Fui falar em Nova York e me lembrei que não tenho condições nem de ir fazer compras no Brás, em São Paulo. Se eu não entrar nessa livraria agora, vou começar a chorar aqui mesmo. Preciso comprar para me distrair aquele livro que a Elizabeth me indicou: "Os Delírios de Consumo de Becky Bloom", da Sophie Kinsella. E vou levar também as continuações: "Becky Bloom: Delírios de Consumo na Quinta Avenida" e "As Listas de Casamento de Becky Bloom", que contam a história de uma jornalista que divide o apartamento com uma amiga e é uma compradora compulsiva.

Coitada, fico imaginando que deve ser muito ruim ser assim, não ter controle sobre seus gastos. Paguei minha conta na livraria - R$ 129,70 no cartão, claro - e caminhei tranqüila pela Rua 33, indo pra casa cheia de sacolas e repetindo para mim mesma como um mantra: me sentir bem, reconfortada e feliz não tem preço. Para todas as outras existem o meu inseparável Mastercard!

Por Jussara Soares