Tema da semana: 'Sinais'

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Minha traição

Eu sou aquela que trai. Traio e sou traída. Num instante sou Judas, o Cristo. Logo depois, Jesus, o Iscariotes. Malha-se um, crucifica-se outro. Ou o contrário disso. Nunca sei quem é quem, mas eu sou um e outro no dia da ceia santa. E nos demais dias, santos ou não, com ceia ou não, também trago comigo a dor do engano e o prazer do sacrifício.

Porque esta noite, mais uma vez, hei de me trair. (Seria isto uma ordem?). Minhas mãos que enganam estão à mesa sagrada. Repartem meu corpo que é símbolo do pão de cada dia e levam à boca o cálice do meu sangue que é vinho seco derramado em vão. Como e bebo em minha triste memória quase sem arrependimento.

Ai de mim que sou filha do homem e da mulher e sigo por que não é determinado. Ai de mim por quem sou traída.

Não direi, no entanto, em busca de clemência, que me apareceram num momento de fraqueza os príncipes dos sacerdotes a me tentar. Tampouco que me deixei seduzir por trinta moedas de prata, porque isto, no mundo a qual pertenço, é apenas vil metal. Quem quiser que fique com elas.

Pois confesso ser eu mesma a minha tentação. Se me traio, engano, delato e entrego à minha própria condenação, o faço em paga de nada. Meu preço da autotraição é outro. Afinal, Jesus e Judas dividem suas feições - inocente e dissimulada - comigo.

Ainda assim, quando sobre mim se abater a tristeza e a agonia, quando souber que vão me renegar sei lá por quantas vezes, quando nos meus poros brotar suor vermelho e correr até o chão, subirei no meu monte de oliveiras antes de, mais uma vez, me beijar. E, em silêncio, vou chorar, como sempre: este cálice de mim não passa, todavia está sendo feita a minha vontade.

Por Jussara Soares