Tema da semana: 'Sinais'

sábado, janeiro 07, 2006

Dia de jogar fora velhas coisas

Ontem foi dia de aniversário. Quase perto da metade pro fim. Quase começando a contagem regressiva.

Ontem foi dia de jogar fora, atrasado, o calendário de 2005. Dia de jogar fora a antiga e rota camiseta do grande show, na bela cidade, onze anos atrás. Porque nada dura pra sempre, nem mesmo lembranças.

Ontem foi dia de encontrar amigos, receber mensagens no celular, e-mail, orkut. Foi dia de sorrir e agradecer. Foi dia de caminhar sozinho na pista sem paisagem, sem o lago e a fonte colorida de outrora. De apertar o passo pra dar tempo...

Ontem foi dia de caminhar na chuva fina por aquelas ruas de sempre, mas... as ruas estavam irreconhecíveis. Era outro lugar, outra cidade, outra vida. Eram outras pessoas. E quando passava perto daquele corpo estirado no chão, braços abertos em cruz, vi que eu mesmo estava ali, olhos petrificados, sem me incomodar com os pingos d’água caindo ou com as pessoas que passavam...

Um corpo caindo, um abismo. Ontem foi dia de me resgatar, melhor, de ser resgatado. De interromper a queda. Nesses séculos de caminhada, de queda livre, tudo foi deixado pra trás. Amores, raivas, amigos, irmãos, derrotas, alegrias...

Ontem foi dia de enfrentar a luz roxa de fim de tarde. A claridade se transformando em penumbra, em noite escura. Imagens de vida passando a toda velocidade, como naqueles segundos antes da morte – dizem. O mundo girando, forças centrípetas, centrífugas agindo. Estática.

Ontem foi dia de levar choques de mil volts, tomar vitaminas de vida longa. Ontem foi dia de fazer a barba e voltar a me procurar no espelho, de cara limpa e olhos cansados. Foi dia de começar a contar a metade – pouco mais, pouco menos – que falta pra acabar.

Ontem foi dia de dizer a mim mesmo que, em toda minha vida, cometi apenas uma traição, mas suficiente pra que carregue eternamente essa culpa. Porque nunca traí você, mulher. Nem vocês, pai, mãe. Nunca traí você, irmão, ou você, amigo.

Sempre corri atrás do que vocês queriam, do melhor pra mim. Persegui insistentemente o sucesso que a sociedade cobra e valoriza. Não medi esforços pra ir em busca do melhor emprego, do reconhecimento profissional. Não neguei ajuda a quem precisou e não me importei em abrir mão de meus interesses, anseios, sonhos, em nome de uma verdade que, hoje, descubro ter sido edificada sobre alicerces de areia.

Minha única decepção é ser traidor de mim mesmo.
Por Paulo Galvez