Tema da semana: 'Sinais'

domingo, janeiro 08, 2006

Desconfiança (de mulher)

Juliana dormira muito mal naquela noite. Pela manhã ainda estava pensativa e desconfiada. Tentava se convencer de que não poderia ser verdade o que sua irmã lhe dissera no dia anterior. Afinal, estava casada com o Hélio há cinco anos. Ele não poderia estar lhe traindo assim, sem mais nem menos, sem motivos. Ela não aceitava tal pensamento, mas uma pequena ponta de desconfiança massacrava suas idéias. Decidiu, então, conversar mais um pouco com sua irmã, a autora da informação que a atormentava tanto.

- Patrícia? Eu estava pensando - diz Juliana ao telefone - em nossa conversa de ontem e...

- Olha, Juliana, se você não acredita, por que você não segue o Hélio e ver com os seus próprios olhos?

A sugestão de Patrícia feria-lhe a alma. Seu dia estava acabado. Contudo, por mais que ela não aceitasse a idéia da traição, somente seguindo a risca o que sua irmã falara é que teria a certeza absoluta da conduta do marido.
Revoltada, então, pede a ajuda da irmã para descobrir de uma vez por todas se o Hélio está sendo um marido infiel.

- Claro, querida - concordou Patrícia. - Juntas iremos desmascarar o safado do seu marido!

A afirmação de Patrícia lhe causou uma dor incomensurável. Ela, intimamente, era impulsionada a brigar com a irmã, mas continha-se, sabia que se Hélio fosse o cafajeste que tudo aparentava, terminaria perdendo a amizade da sua irmã tão querida. E aceitava os piores adjetivos dados ao marido.

- À tarde - continuou Patrícia - eu passarei na sua casa para bolarmos um plano.

Juliana concordou. Desligou o telefone e deitou-se no sofá. Ligou a televisão, porém não conseguia processar qualquer informação, estava absorta demais para tal.

Patrícia chegou lá pelas duas da tarde, e encontrou uma Juliana melancólica. Parecia que seu mundo ruíra em mil pedaços.

- Ânimo, minha irmã! Não se deixe abater. Homem é tudo igual. Todos são safados.

- É fácil quando se está de fora, Patrícia...

- Tudo bem. Você tem razão. Mas vamos ao que interessa. Eu tive uma ótima idéia!

Patrícia expõe sua idéia para Juliana, que concorda de imediato. Ela deveria seguir o marido quando ele deixasse o trabalho. Para isso, usaria um disfarce já idealizado pela irmã. Patrícia trouxera uma peruca loira e algumas roupas bastante diferentes das que a irmã costumava usar. Decidiram que a investigação começaria no dia seguinte. Patrícia tomara a iniciativa de alugar um carro para que Juliana não corresse o risco de ser reconhecida pelo Hélio caso ela usasse o seu.

Uma loira, de óculos escuros e roupas extravagantes é vista dentro de um Fiesta prata, estacionado do outro lado da rua, em frente ao escritório de Hélio. Ninguém desconfiaria tratar-se de Juliana. O marido sai com o carro, ela o persegue. De repente, Hélio entra em uma rua, saindo completamente do seu percurso diário. Juliana está em seu encalço. Ele pára em frete a um prédio e desce. Ela reluta por algum tempo em sair de dentro do veículo. Quando resolve sair, ver que o marido já está de volta ao carro. Ele ficara no prédio aproximadamente uns dez, quinze minutos. Em dez minutos ninguém trai. Assim pensou. Hélio voltou ao percurso habitual e seguiu para a sua casa. Juliana ligou para Patrícia, encontrou-se com ela num restaurante das proximidades onde trocaram de veículo e tiraram o seu disfarce.

De volta a sua casa, Juliana controlou-se para não cair no choro. Inventou um mal-estar para evitar conversar com o marido e foi para a cama. Tomou um calmante e dormiu.

Quando Juliana acordou, Hélio já havia saído para o trabalho, sem ao menos se despedir. Indignada, ligou para Patrícia em busca de apoio, esta veio imediatamente ao seu encontro.

- Eu não lhe disse, minha irmã!

- Até hoje, Patrícia - soluçou Juliana -; eu não queria acreditar nas suas desconfianças, mas, depois do que aconteceu, não tenho mais dúvidas.

- Ainda bem que você abriu os olhos!

- Eu quero flagrar os dois, Patrícia. Eu quero muito isso.

- Ontem você poderia ter feito isso. Mas você teve medo...

No mesmo lado da rua, em frente ao mesmo prédio, na mesma hora estava a mesma loira a espera de Hélio. A aquele desvio no caminho parecia que já fazia parte do seu percurso. Juliana prometera para si mesma que não aguardaria um só segundo, entraria em ação assim que Hélio descesse do carro. E foi o que fez. Atravessou a rua, encaminhou-se à portaria do prédio: era um pequeno hotel. Juliana conversou com o recepcionista, disse-lhe que era secretária de Hélio e que lhe trazia papéis importantes solicitados por ele próprio. O recepcionista ingenuamente engoliu a conversa, e ainda deu-lhe o número do apartamento que Hélio se encontrava.

Juliana sentia tremores nas pernas, as mãos suavam e a voz parecia sumir. Estava em frente à porta do apartamento que Hélio estava. Não teve coragem de bater na porta. Resolveu voltar ao elevador e ir para a sua casa. Pediria a separação ao marido, mas não passaria por aquela humilhação. Antes de entrar no elevador, se enche de coragem e resolver acabar com a farsa. Em direção ao apartamento percebe que a por estava destrancada. Silenciosamente, Juliana entra no apartamento muito bem decorado. Logo percebe risos e gemidos. Em direção ao quarto, vê a porta entreaberta. Hélio, sem roupas, está sobre uma mulher, também nua, porém com o rosto escondido pelas costas do marido.

- Canalha! E eu nunca desconfiei! - disse Juliana -, interrompida pela revelação ainda maior: a mulher com quem Hélio a traía era Patrícia, sua própria irmã.

- Patrícia!

- Sim, Juliana. Eu e o Hélio somos amantes desde que eram noivos. Na sua lua-de-mel fiquei hospedada na mesma cidade. Fiz muito mais sexo com ele do que você - disse friamente à irmã. Prosseguindo: - Mas eu fiz isso apenas para mostrar que ele não te merece. Eu te amo minha irmã, e por isso armei esse flagrante.

- Chega! - dizia Juliana. Chega de mentiras. Hélio, como pôde me trair?

Cheia de ódio e cega pela dupla traição, Juliana saca da bolsa uma arma e a aponta para o marido.
- Hélio, diga que merece morrer. Diga - gritava Juliana.

Hélio tenta se desculpar, mas ela insiste, até que Hélio, também chorando, grita: - Sim, eu mereço mor...

As palavras de Hélio não se completaram, foram cortadas pelo som do disparo seco da arma da mulher. Com um único tiro, Juliana punha fim à dupla traição que sofrera durante anos. Uma única bala entrara da garganta e se alojara no cérebro. Estava tudo acabado. Apesar de tudo, com um semblante tranqüilo, ela se livrara do horror de ser traída pelo marido e a própria irmã. Juliana se matara, e toda a mágoa escorria com seu sangue, espalhado por todo o quarto.
Por Marcelo Mello, que é Apenas Um Jornalista