Tema da semana: 'Sinais'

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Cuecão

7h da manhã. O pior despertar de sua vida está começando. Ecos da noite anterior explodem sua fronte pouco abastecida de cicatrizes da vida ou espinhas. Pensa em passar o resto do dia, ou melhor, o resto do mês ali, deitado, esperando por uma intervenção divina. 8h e nada, nem um ruído. A casa está vazia. Resolve se reerguer. Afinal, a bebedeira foi animal. Duas garrafas de Johnny Walker junto com dois amigos mais resistentes à bebida. A ressaca é monstruosa. A boca seca, o fígado sufocado, a cabeça nem se fala. “Um Engov antes e outro depois. Quem acredita nisso?” - pensa ele. Levanta meio cambaleante, veste um calção da Adidas verde desbotado, uma camisa com os dizeres “quer saber meu telefone? É zero 800”, tênis Rainha para caminhada, joga uma água na lata, pega seu walkman e sai de casa para uma turnê anti-marasmo.

A trilha sonora já começa com Ozzy Osbourne convidando para um passeio em seu “Trem Maluco”. O rapaz está revoltado, acelera o passo naquela quente manhã de verão. Acelera no ritmo da música cantando em voz baixa e acompanhando a batida do heavy metal dando tapas em suas pernas. O calor está forte, o suor escorrendo pelo pescoço, pela testa. A camisa começando a encharcar. O Ozzy lá e ele ali. Marchando bravamente contra as limitações de seu corpo. Tenta se lembrar de algum detalhe comprometedor e nada. As únicas lembranças são do início da noite quando tudo estava perfeitamente normal. Sentia uma pequena dor de estômago. Talvez pelo excesso de álcool. “Chega de andar, se isso fosse bom mesmo, carteiros seriam imortais”.

O banho gelado dá novo ânimo que logo se acaba com um telefonema. Era um dos parceiros de birita da noite passada.

- De novo não. Hoje não dá, estou estragado. Nem me lembro como a noite terminou ontem.

- Sério? Não se lembra de nada mesmo?

- Nadica de nada. Como cheguei em casa? Nós bebemos muito?

- Cara, se eu fosse você, nunca mais olharia para a cara da Andréia. Cara, que mico! Eu nem sabia que você fosse capaz de fazer aquilo.

- O que eu fiz?

- Quase nada. Só levantou a calcinha dela por trás. Um “cuecão” feminino no maior estilo.

- Eu? Tem certeza?

- Claro como o dia. Tudo por causa de um cara que estava dando em cima dela. Cara, nunca te vi daquele jeito. Eu sei que vocês se gostam e tudo o mais, mas aquilo foi demais. Não conhecia esse seu lado ciumento.

-Eu e a Andréia? Juntos? Cuecão? Ciúmes?

Desligou o telefone e caiu desmaiado na cama prometendo nunca mais encostar uma gota de álcool na boca. Também havia prometido jamais procurar ou sequer falar o nome “dela” novamente. Ela o fez sofrer muito com o término do noivado por causa de um outro homem. Já havia sido humilhado suficientemente pela infiel Andréia. A cabeça voltou a rodar, os olhos se fecharam por um instante, a novalgina ingerida com Gatorade de maracujá começava a surtir efeito. A calmaria foi se instalando em seu corpo, os pensamentos se encaixando. De repente um malicioso sorriso. A lembrança do feito.
“Que bom ter puxado sua calcinha. Devia ter dado esse cuecão há mais tempo”.

Por Wallace Feitosa