Tema da semana: 'Sinais'

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

As Últimas 24 Horas da Minha Vida

“Mas que estranho o médico me chamar com urgência, quase oito da noite, por causa de estresse e uma suspeita de anemia! Pelo que me lembro os exames só vão ficar prontos semana que vem!”. É com esses pensamentos que sigo até o consultório do Dr. Roger. Meu médico desde que me lembro, nunca o senti tão preocupado comigo como hoje. Essa preocupação me deu uma ligeira ansiedade, mas nada como chegar logo ao consultório para tirar esse “desespero” do doutor a limpo!

Ao entrar na recepção sinto certo “clima”... Sônia, a atendente amiga e já bem antiga da clínica, me olha com uma carinha de choro.

- Oi, Sônia. Tudo bem? O que o Roger quer com tanta pressa?

Ela me olha estranhamente e começa a chorar. Levanta da mesa e corre até o interior da clínica sem nem me responder. “Mas que diabos está acontecendo aqui?” quase grito na recepção. Alguns segundos depois o próprio Roger vem me buscar. Entro no consultório, sento-me e espero o que ele tem a me dizer:

- Bom... Os resultados dos seus exames acabaram de chegar e eu achei melhor te chamar logo.

- Você está me assustando. É tão grave assim? Não é anemia?

- O seu hemograma acusou uma alta taxa de glóbulos brancos no sangue. Seu mielograma confirmou. Eu não tenho como dar voltas sobre isso, então você terá que ser forte e escutar com atenção e, se possível, com calma. Você está doente. Gravemente doente. Os exames detectaram um vírus raríssimo em seu organismo. Este vírus foi classificado como uma ramificação do Ebóla, um parente distante, mas tão voraz quanto...

Silêncio... Eu poderia ouvir um alfinete cair na recepção.

- Tem cura?

- Infelizmente não.

- Tratamentos paliativos?

- Sinto muito...

- Quanto tempo eu tenho de vida?

- Pelo tempo entre a coleta do material para exames e o resultado, eu não acredito que você tenha mais que 24 horas.

- Um dia... Um dia. E vai doer?

- Vai. Você já deve estar com todo seu sistema imunológico comprometido. Dentro de pouco tempo as hemorragias internas vão ter início e você terá a falência múltipla dos órgãos. Acho melhor você ser internada agora.

- Agora? Não! Eu tenho algumas coisas a fazer, afinal é o meu último dia. Amanhã a gente vê o que faz ou quando começar a sentir dores ou algo estranho eu te ligo.

- Eu sinto muito por isso. Se eu pudes..

- Você não tem culpa! – Interrompi. – Só preciso de um tempo. A gente se fala.

Saí do consultório como se mil demônios estivessem atrás de mim. Entrei no carro, respirei fundo e fiz a minha lista de tudo o que queria e precisava fazer em 24 horas. Não podia perder tempo!

Primeira parada: o apartamento do meu amor. Ele nunca me quis, por causa da namorada, mas hoje vai querer, sim!! Será minha última noite com um homem. Entro mal ele abre a porta, o agarro e beijo. Arrasto-o para o quarto e, com ele tomado pela incredulidade, misturada com medo e excitação, transamos. Dou-lhe um último beijo e saio. Enquanto desço pelo elevador, uma ligação.

- Visa, boa noite. Em que posso ajudá-la?

- Boa noite. Qual o limite máximo que vocês podem dar ao meu cartão de crédito? É internacional, pago em dia e nunca parcelei.

- Um momento.... Seu limite pode chegar a R$ 18.000,00. Pode ser?

- Está ótimo! A partir de agora?

- Sim. Já está valendo. Mais alguma coisa?

- Só confirma a validade da cobertura das faturas em caso de morte, por favor? Vai aumentar a mensalidade?

- Terá um aumento de R$ 2,00 por mês. Vai manter?

- Vou sim. Obrigada e boa noite.

- Boa noite.

Próxima parada: casa. Pego meu povo e levo para o restaurante mais chique de São Paulo. Pratos caros, vinho importado e saco meu Visa para pagar. Chego em casa de madrugada mas não deixo meu filho dormir. Será nossa última noite juntos. Pipocas, filmes, tudo o que ele quer. Mas ele é criança e não resiste. Dorme no meu colo, ambos enroscados no sofá. Eu terei a eternidade para dormir.

Amanhece. Tomo um banho e saio de novo. Vou visitar meu “ex-chefe”. Aquele bundão, grosso e mal-educado vai ouvir umas verdades na frente de todos! Saio do meu emprego com a alma lavada. Só não subi na mesa e nem bati nele, mas faltou pouco. Foi ótimo vê-lo ficar vermelho com meia dúzia de verdades gritadas à plenos pulmões!

Pego meu filho de novo e vamos às compras! Lojas de brinquedos, doces, lanches, presentes para todos e vamos passar uma tarde gostosa no zoológico. O relógio me diz que tenho somente duas horas. Mas não sinto nada! Vamos tomar um sorvete e descubro que lá se foi o limite do cartão. TV, DVD, eletrodomésticos novos para minha mãe, brinquedos e roupas o detonaram. Dou os ombros, sem me preocupar. O seguro cobre.

Voltamos para casa e ao estacionar, vejo que meu querido vizinho invadiu minha vaga de novo! Quanto será que pesa o macaco do carro? Se eu soltá-lo de certa altura, acho que pode estragar um pouquinho a pintura... Dane-se! Pego o macaco, subo no teto do carro dele e solto no capô! Puxa! Afundou mesmo!

Tomo um banho, me perfumo, faço escova e me maquio. Não quero ninguém me trocando. Coloco minha roupa nova comprada especialmente para a ocasião. Caríssima, de grife, mas que não amassa. A cor também ajuda já que não é clara e não vai manchar ou amarelar. Vou estar linda no meu velório! Nos últimos retoques ouço o telefone. Meu filho atende:

- Mããããããee, é para você. O Dr. Roger.

- Oi, Roger. Que bom que ligou. Ainda estou viva e não estou sentindo nada...

- É sobre isso mesmo que quero conversar. Você está sentada? Pois bem, minha linda. Ótimas notícias. O pessoal do laboratório me ligou agora mesmo pedindo desculpas. Não entendi bem, mas trocaram seus exames por um outro, experimental. Não compreenderam como isso pôde acontecer. Mas o melhor de tudo é: VOCÊ NÃO VAI MORRER!!

Novo silêncio... Penso no meu amor, no meu ex-chefe e agora definitivamente ex-emprego, nos gastos do cartão, na nova situação da conta-corrente e no carro do vizinho.

- Roger, meu anjo... Você tem arsênico aí?


Por Sandra Pontes