Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Ainda bem que existe o medo

O que seria do homem não fosse o medo? Encararíamos pit-bulls, seríamos lanchinhos de leões e provocaríamos Tyson, Maguila ou Popó por pura diversão. Sem dúvidas, o medo foi uma bela sacada da natureza para evitar que fizéssemos muita bobagem. Como desejar a mulher do próximo, estando o próximo muito próximo, por exemplo.
Fora os medos universais, aqueles que todos têm, como andar em ônibus vazio em grande cidade, principalmente à noite, encarar o Mike Tyson em uma briga de trânsito ou ficar desemprego, o medo depende do gosto do dono. Passando os olhos no Mimeographo esta semana, por exemplo, descubro que Jussara se despenteia por uma tão útil lagartixa, aquele bichinho que me ajuda no combate aos pernilongos que tanto me incomodam. Já Sandra tem calafrios com o sobe e desce de aviões, algo que nunca povoou minha lista de medos. Também, seria estranho que alguém, morando longe de um aeroporto e sendo usuário de ônibus e trem, tivesse medo da criação de Santos Dumont...
Tenho medo de muita coisa. De mordida de cachorro, já tive mais. Mas dependendo da situação e do tamanho do bicho, o medo volta a dar as caras. Ainda mais com o noticiário apontando pit-bulls assassinos aos montes, geralmente pilotados por pit boys ensandecidos. Prova de matemática também sempre me deixou apreensivo. Não que eu, por conta do medo, passasse a noite estudando ou coisa parecida, mas somar, dividir e multiplicar era até razoavelmente simples, até que inventaram de misturar letra com número. E eu nunca gostei destas misturas. Não gosto de banana no almoço e nem de maçã na maionese. Doce é doce, salgado é salgado. Letra e número nunca poderiam se juntar. Até porque eu nunca pensei em ser engenheiro, arquiteto... Preciso só somar, subtrair, dividir e multiplicar para fazer o dinheiro chegar ao fim do mês. Não é tão fácil.
Medo de morrer, não tenho. Pode ser que o passar dos anos me faça mudar de idéia, mas até aqui isso nunca me preocupou. É claro que isso até poderia ter um lado positivo: com medo da morte eu poderia tomar vergonha e perder peso. A saúde agradeceria.
Alguns medos do passado ficaram para trás. Como o medo da reação de dona Maria com a demora na hora de ir buscar água na mina. Deixava o galão de lado e caia na pelada. Jogaria uma peladinha só, rapidinho. Acabava demorando uma, duas, três horas. Voltava suado e cheio de medo. A parada para a pelada poderia ser no caminho da mina, na hora de buscar pão ou na ida ao supermercado. Não costumava acabar bem. Medo de mamãe achar minhas revistas proibidas no armário também me tiravam o sono.
Agora, medo, medo mesmo, tem um que vai me acompanhar para todo o sempre. Cadeira de dentista. Não há nada que me faça relaxar. Era adolescente e a dentista era linda. Achava que, ali, aquele medo terrível começaria a acabar. Ledo engano. Ela combinou comigo: “Em caso de doer, você levanta a mão e eu paro”. Pronto, bastava o motorzinho ser ligado e eu estava lá com o braço erguido. O tempo passou, eu não levanto o braço mais, mas, que horror... Vem cá, com tanta tecnologia, não dá para arrumar um jeito mais civilizado para eu tratar das minhas cáries? Juram que anestesia geral não é boa idéia?


Por João Henrique