Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Uma crônica para Helton

O chute sai forte, mas à meia altura. Ainda assim não se pode dizer que foi uma defesa fácil. Pelo contrário. O fato é que quando a mão espalmada do goleiro rubro-negro entrou no caminho do tiro desferido pelo atacante santista, ninguém tinha mais dúvidas: o Campeonato Brasileiro mais empolgante de todos os tempos estava, enfim, a dois minutos do fim da última rodada, definido.

Cheio de alternativas, o Brasileirão chegou à 38ª rodada com três postulantes ao título: além de Flamengo e Santos, que jogaram ontem no Maracanã, o Botafogo, que venceu o São Paulo no Morumbi por 1 a zero, também tinha chances. Flamengo e Santos jogavam por uma vitória, enquanto o Botafogo torcia por um empate para, vencendo por dois gols ou mais de diferença, tirar a desvantagem em relação ao saldo de gols do rival carioca. O time até venceu o campeão mundial no Morumbi, mas não conseguiu fazer o gol que lhe daria o título.

Cheio de alternativas na classificação desde a primeira rodada, o Campeonato não fugiu do script na última rodada. Em São Paulo, o Botafogo dava a impressão de que os dois gols de diferença seriam logo tirados. Envolvente, o time pressionou o Campeão Mundial o jogo inteiro e só não conseguiu o seu objetivo pela ótima atuação do goleiro Rogério Ceni e uma série incrível de finalizações na trave são paulina: nada menos que quatro chutes explodiram na trave de Ceni. No Rio, o Flamengo voltou a depender em excesso da categoria do atacante Toró, revelado pelo rival Fluminense e contratado pelo time da Gávea no final do ano passado. O time fazia boa partida até que o camisa 10 sentiu uma antiga contusão e não voltou do vestiário para o segundo tempo.

Sem Toró, o Flamengo foi pressionado inteiramente pelo Santos. Para piorar, aos cinco minutos do segundo tempo o time sofreu nova baixa: o descontrolado Fernando foi expulso após entrada desleal no veterano Basílio. Foi aí que ficou evidente a importância para o Flamengo de hoje de um goleiro que chegou em meio à muita desconfiança e foi mostrando, aos poucos, que merecia herdar a camisa de Sinforiano Garcia, Ubaldo Fillol e Raul Plassman. Mero espectador do jogo no primeiro tempo, Helton fez nada menos que seis defesas difíceis na segunda etapa. A mais difícil delas, claro, o pênalti cobrado por Geílson aos 44 minutos do segundo tempo. O chute saiu forte, à meia altura, e o grandalhão Helton se esticou todo para mandar à córner. Assustada com os avanços do Santos, a torcida rubro-negra – noventa mil pessoas pagaram ingressos ontem no Maracanã, batendo o recorde de público do Maracanã – enfim soltou o grito da garganta. Depois daquela defesa, nenhum torcedor tinha mais dúvida: 14 anos depois o Brasileirão estava voltando para a Gávea.

Foi Helton tocar na bola para, como se fosse ensaiado, uma música tomar conta do estádio Mário Filho: “ó meu Mengão, eu gosto de você, quero cantar ao mundo inteiro, a alegria de ser rubro-negro...” Se a defesa emocionou a torcida, ela também marcou o herói: o goleiro jogou os dois minutos finais chorando. E foi assim, com a torcida revivendo o hino dos anos 70 e 80 e com as lágrimas descendo da face do goleiro que o Santos perderia a última chance de mudar a sorte do jogo: na cobrança do escanteio, o repatriado zagueiro Alex subiu mais que a zaga carioca e cabeceou forte, no ângulo, para nova defesa de Helton. Após o jogo, Helton disse que a chance de perder o Brasileiro aos 44 minutos do segundo tempo o levou de volta a 1983, quando Assis, então atacante tirou o título carioca do Fla no último minuto de jogo. “Eu me lembrei daquilo e pensei: hoje vai ser diferente, eu vou pegar este pênalti”.

Capixaba, Helton José Fraga começou a carreira nos juniores do Volta Redonda. Se dividia entre os treinos na Cidade do Aço e a faculdade de Jornalismo na vizinha Barra Mansa. Chegou a fazer um teste na Gávea, mas acabou não ficando. “Eu temia não terminar a faculdade”, lembra o herói. Dos juniores do Volta Redonda, seguiu para a Europa. Foi jogar no Estrela da Amadora, de Portugal. Passou ainda pelo futebol belga e pelo Aston Villa, da Inglaterra. Na Europa, fez a independência financeira mas acabou não sendo conhecido pelo torcedor brasileiro, já que nunca defendeu uma equipe de ponta, com espaço na mídia. Foi contratado pelo Flamengo para compor o elenco, mas acabou assumindo a posição quando o polêmico Fábio Costa brigou com a diretoria e abandonou o clube. Visto no início com reservas por parte da torcida e da imprensa carioca, Helton foi, aos poucos, ganhando a confiança de todos. No vestiário do título, nenhum desabafo e nenhuma farpa para Vanderlei Luxemburgo, que passou a semana dizendo que, dos postulantes, o Santos era o único com “estrutura” para ganhar o Brasileiro.

Helton não foi visto no gramado na hora da volta olímpica. A reportagem o encontrou no vestiário, chorando abraçado ao filho Henrique, que já herdou a camisa amarela com que o número 1 da Gávea atuou no jogo decisivo. “Foi uma homenagem ao Raul, meu ídolo de infância. O Henrique me pediu, a camisa é dele. É o meu torcedor número 1”. O veterano goleiro, que completa 40 anos em fevereiro, deve anunciar a aposentadoria nos próximos dias, depois de voltar de uma viagem ao Espírito Santo natal. Ontem, após o jogo, nada de churrascaria ou boate na Barra da Tijuca. “Deixa eu acompanhar o meu vice-campeão preferido”, disse dando um forte abraço em ‘seo’ Jerson, o pai, construtor aposentado, apaixonado pela Estrela Solitária. “Só o ‘irmão´ para fazer isso: o Botafogo perde o título mas eu estou feliz”. O comentário não gera nenhuma represália por parte da dezena de rubro-negros que ocupa o vestiário. Eles sabem bem que, apesar de botafoguense, foi ‘seo’ Jérson quem pôs no mundo o herói do título rubro-negro. O que eles nem imaginam é que Helton veio ao mundo com a ajuda providencial de uma cruz-maltina: dona Odenice, a Dê, que preferiu ficar em casa, na Ilha do Governador. “Nunca pensei que fosse torcer tanto pelo Flamengo. Mas eu não consigo assistir, não”. É na casa de dona Dê, na Ilha do Governador, que a festa em três gerações não tem hora – nem dia - para acabar.

Por João Henrique