Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, dezembro 08, 2005

a sua bênção, minha Madrinha

Não sou dos católicos mais tradicionais. Até acho que passo mais tempo sem ir à Igreja do que deveria. De todo o modo, me considero católico, sim. Não posso negar que o é o ritual religioso que mais se aproxima do meu jeito de entender o mundo, mesmo que boa parte da história da Igreja esteja ligada a equívocos, intolerância e uma proximidade indecente com os donos do poder.

Mas eu cresci em outro ambiente. Ainda pequeno criado em uma família católica pero no mucho, fui apresentado à Santa Igreja. Aos nove anos, fui para a catequese. Era uma experiência interessante. Pela primeira vez, estudaria na mesma classe de meu irmão, ano e meio mais novo. Salvo um ou outro sábado enfastiado, comparecia às aulas de catecismo de bom grado. Só não ia tão feliz quando a molequeira da rua não aguardava o fim da aula para iniciar as peladas do sábado ou quando, maldade suprema, a tabela do campeonato marcava jogo do Flu para o mesmo horário da aula, o que custava acontecer, já que o catecismo acontecia às 15 horas na Escola Municipal Álvaro Rocha, palco também das minhas primeiras peladas de futebol de salão – peladas não consentidas, é verdade, o que nos obrigava a pular o muro do colégio para usufruir a quadra, que não era nenhum ginásio do Maracanãzinho.

De todo o modo, guardo boas lembranças do meu primeiro contato com a religião. Boa parte desta boa vontade vem do modo como éramos tratados por dona Neide, a catequista. Com jeitinho de tia avó carinhosa, dona Neide ia nos passando os ensinamentos de Cristo. Não preciso fazer força para lembrar de sua letra no meu caderno ou de seu sorriso tenro. Em novembro de 82, estávamos eu e Frederico, o meu irmão, na Capela do Sagrado Coração de Jesus, no Carvão, para a esperada Primeira Comunhão. Festa lá em casa. Papai e mamãe, apesar de também não serem tão presentes à vida da Igreja, davam importância à formação religiosa dos filhos. E nossa Primeira Comunhão aconteceu com pompa e circunstância, com direito a bolo, guaraná e convidados. Parecia uma festa de aniversário compartilhada entre dois irmãos.

Maior um pouco, durante o tempo em que morei em Barra Mansa, teria contato com uma Igreja próxima dos movimentos populares, ajudando a organizar os metalúrgicos e a própria comunidade em si. Tempos de greve dos trabalhadores e as Comunidades Eclesiais de Base funcionando a todo vapor. Foi nesta época que senti que ali estava o meu lado, o meu time, a minha turma. Uma espécie de sentimento de classe, forjado dentro da Igreja.
Os anos se passaram e minha participação na Igreja foi rareando. O contato com o marxismo, o questionamento aos dogmas da Igreja e as decepções com algumas posturas do Vaticano contribuíram para isso. Durante boa parte da juventude, teria respondido ateu a alguma pergunta do Censo, por exemplo.

De toda maneira, uma figura da Igreja sempre me encantou: Maria. A história da mulher escolhida para gerar o Filho de Deus me emociona. A idéia de generosidade, carinho e afeto de Mãe passados por Nossa Senhora me enternecem. Assistindo ao Auto da Compadecida cheguei às lágrimas vendo Fernanda Montenegro, como Nossa Senhora, defendendo o cara de pau do João Grilo (Matheus Nachtergale) durante o Juízo Final, frente a um Jesus Cristo negro. Para quem não conhece a obra de Ariano Suassuna: com uma advogada dessas é claro que o pecador Grilo foi perdoado.

Escrevo estas mal traçadas por um motivo simples: hoje é 8 de dezembro, Dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Vassouras, a quem, na intimidade de minhas preces, chamo de Madrinha. Posso até não ir à Procissão, logo mais, mas, com certeza, não esqueceria de maneira nenhuma a importância desta data.

Por João Henrique