Tema da semana: 'Sinais'

sábado, dezembro 03, 2005

O chão se liquefazendo*

Para ler ouvindo “Quando você crescer”, de Raul Seixas
Até onde pode um homem perseguir seu sonho? Até quando? Henry Miller, meu maior exemplo de perseverança, teve seu primeiro livro publicado aos 43 anos, na França, porque os Estados Unidos, sua terra natal, não o compreendiam. Tenho o privilégio de ter uma das primeiras edições brasileiras de Trópico de Câncer, de 1963, com uma nota enorme da editora justificando a publicação de um livro considerado pornográfico.
Viver uma vida inteira à espera da concretização do sonho. É esse nosso destino? Matarmo-nos aos poucos, um pouquinho a cada dia.
Porque a mesa posta, assim como ela está, é o que parece correto. Não tente mudar as cadeiras de lugar ou comer no chão. Ou em pé. Faça exatamente como os outros fazem.
Se o tempo é infinito e todo o resto tem fim, acreditaríamos no eterno retorno? E se tudo se repetirá eternamente, exatamente igual, não seria a hora de tomar uma atitude? Eternamente as mesmas dúvidas, as mesmas conveniências, a mesma impotência. A mesma vida medíocre. Tudo de novo!
Quero outra história pra mim. Sem convenções, contracheques, contramão. Que o sentido que eu tome seja sempre o correto, mesmo que apenas pra mim. Mesmo que contrário ao resto.
Prender-se à vida de outros e não viver a sua. Pai, mãe, mulher, filhos, a mesma cidade, o mesmo emprego. Está aí a minha fórmula da derrota.
Mas meu medo de sair de casa à noite, o pavor em cada esquina, o desespero ante a aproximação de alguém são significativos, simbólicos. O trauma de um assalto antigo, que não se vai, esconde o medo maior do contato com outra realidade que não a minha. Porque sempre nos ensinaram que a armadura moderna de um carro, as grades na janela de nosso castelo pós-moderno e a solidez de nossa conta bancária são nossos símbolos maiores de segurança.
Miller viveu entre vagabundos, prostitutas, trapaceiros. Um desgosto para os pais - que nunca perdoam o filho que não realizou o que eles gostariam de ter realizado mas não o fizeram pela mesma covardia que querem nos infligir -, um malandro para a sociedade, um desajustado para o Estado. Seu sonho era partir para a Europa e se tornar escritor. E, como já disse, perseguiu isso quase a vida toda. Sobre a partida definitiva para a França, sem June – ela mereceria páginas e páginas nessa história, assim como Anais Nin -, em 1930, escreveu, oito anos depois:
“Assim como um pedaço de matéria se solta do sol para poder viver como uma criação completamente nova, assim eu sinto hoje meu afastamento da América. Uma vez feita a separação, uma nova órbita se estabelece e não há volta. Para mim o sol tinha deixado de existir, eu mesmo me tornara um sol ardente. E como todos os outros sóis do universo, eu tinha que me nutrir de dentro”.
O meu sonho é simples: viver o que não se vive porque se tem medo. Inverter a lógica e transformar em perigo não a aventura, mas a mesmice. Sentir o chão se liquefazer e cair no abismo sem fim. Um eterno recomeço, mas não por ter errado e sim por ter arriscado.
*Com idéias de “Quando Nietzsche Chorou”, de Irvin D. Yalom
Por Paulo Galvez