Tema da semana: 'Sinais'

Terça-feira, Dezembro 20, 2005

Mais um conto de Natal

“Carlos, eu preciso de um favor seu. Queremos que o Júnior continue acreditando no Papai Noel e...”. “Cristina, você sabe que eu amo o Juninho, mas nem isso me fará vestir aquela roupa vermelha ridícula, e nem vem me chamar de barrigudo!”. “Não é nada disso, seu bobo! Compramos um presente pra ele e tudo o que quero é que você o leve lá para a casa da mamãe na noite de Natal. Você deixa o presente no sapatinho dele, que estará na janela, e faz um barulho qualquer. Aí você dá a volta pelos fundos da casa e chega um pouco depois, como se não soubesse de nada, para a ceia. Será fácil!”.

“Fácil”, ela disse. Só esqueceu de me contar que o Natal de 1979 ficará na história como um dos mais chuvosos no estado de São Paulo. Meu Deus do céu, que chuva é essa? O jeito vai ser parar um pouco ali no bar e tomar algo para esquentar, enquanto a roupa seca.

Onze horas. Acho que já estou na minha hora. “Ô Armando, manda a saideira aí que eu preciso bancar o Papai Noel ainda”. “Boa noite, moçada, bom Natal para todos!”. Ainda bem que a chuva parou um pouco, se eu correr vai dar tempo de... “Aí, figura, tem um cigarro?”. “Opa, tenho sim. Pega aí que eu acendo para você”. “Pensando melhor, acho que vou querer esse seu relógio também, figura. Deve ser coisa fina!”. “Era só o que me faltava! Pode levar, mas vira esse revólver para o outro lado”.

Tomara que ele não queira levar o presente do Juninho, senão eu... “Aí, figura, o que é que tem no embrulho? Presentinho pra patroa?”. “Não, é o presente do meu sobrinho”. “Beleza então, o Basílio já tem dois anos e ainda não teve presente de Natal. Foi o Papai Noel que te mandou, gente boa!”. “Poxa, não faz isso! Eu prometi para a minha irmã que ia levar o presente dele, não tenho como comprar outro a essa hora da noite e ele está esperando o Papai Noel, quebra essa!”. “Tá bom então, meu irmão. O Basílio nunca vai acreditar nessa viadagem de Papai Noel mesmo, e nem tá esperando presente. Mas eu vou querer essa jaqueta. Vou passar o Ano Novo bem vestido e marcar presença. Passa todo o dinheiro também!”. “Valeu mesmo deixar o presente do meu sobrinho e...” Pow! “Não vou levar o presente do teu sobrinho, figura, eu não gosto de roubar criança, mas você tinha que pagar um pouco mais pelo Basílio ficar sem presente, tava ficando barato. Feliz Natal!”.

Dor. Não imaginei que uma coronhada fosse tão dolorosa. Que horas são? Droga, sem relógio. Eu devia voltar para o bar, mas preciso entregar o presente do Juninho. Dor. Tontura. Se eu agüentar mais um pouco chego lá.

Deve estar tarde, melhor correr. Tontura. Escadas. Quintal da casa da mamãe. Dor. Sapatos. Presente. Bater na porta e correr para os fundos. Quase desmaiando...

“Buá! Mamãe, o Papai Noel não gosta de mim!”. “Não fala isso, Júnior. O que aconteceu?”. “O Papai Noel nem viu o meu sapatinho lá na janela (snif) e deixou presente só no sapato do papai, aqui na porta, e ele nem é mais criança!”. “Ah, Júnior. O Papai Noel é velhinho e deve ter a vista ruim, além do mais deve estar cansado de entregar tantos presentes. Veja, esse presente é seu. É o carrinho que você queria!”. Eu mato o Carlos!

Toc, toc. “Ah, é você cunhado. Que pena que chegou tão tarde, o Papai Noel acabou de ir embora, mas estava tão atrapalhado que entregou errado o presente do meu filho – e sua mãe está lá na cozinha, preocupada com você”. “Eu explico tudo para você depois, agora preciso tomar um banho e descansar um pouco. Diz para a mamãe e para a Cristina que eu já desço”.

“Cristina, eu disse para você que não deveríamos confiar no imprestável deste seu irmão. Está completamente tonto e cheirando bebida. Sorte não ter perdido o presente do nosso filho. Ano que vem eu contrato alguém para se vestir de Papai Noel, e tem que ser alguém sóbrio!”.

Por Marcos Donizetti