Tema da semana: 'Sinais'

quarta-feira, dezembro 14, 2005

A caixa

Estou à procura de uma caixa. Não qualquer caixa. As de sapatos, que sempre têm alguma serventia, ou mesmo essas coloridas, até bonitas, que todo mundo compra por aí não é o que preciso. Procuro algo especial; tão especial que a caixa ou deve ser modelo exclusivo, ou ainda não foi feita.

Preciso de uma caixa que tenha a resistência do aço, a beleza do papel marchê e um certo mistério de um baú esculpido em carvalho. Ao mesmo tempo, ela deve ser de uma textura suave, para que seja agradável desde o primeiro toque, e leve para que possa ser carregada de um lado ao outro.

Não sei como há de ser isso, pois a caixa que procuro também deve ser espaçosa. Não me pergunte suas medidas. Apenas a imagino grande o suficiente para colocar nela o que, mesmo sem saber, andei juntando ao longo dos últimos tempos para agradar alguém. Entre abstratos e concretos, nessa caixa deve ir, sobretudo, felicidade embrulhada pra presente e em cada coisa - até mesmo nas mais tolas, mas não sem sentido - deve ir um pouco de mim.

Nessa caixa que imagino em tons avermelhados, mas que ainda não encontrei, eu colocaria uma cota diária de seis abraços. Meus, claro. É que me disseram que para qualquer pessoa ser feliz precisa ser abraçada meia dúzia de vezes ao dia. Deste modo, eu garantindo a porção mínima o que viesse de outra parte seria lucro para quem merece felicidade em dobro.

Bem ao lado dos abraços (sim, nesta caixa deve haver até compartimentos), seria possível encontrar um kit de piadas idiotas e pensamentos insensatos só para fazer rir até ficar vermelho naqueles dias "assim, assim". Por ali mesmo, deixaria uma lista inesgotável de assuntos interessantes e doses generosas de paciência para que sejam usados em caso de emergência. Como quando alguém surta do outro lado do MSN, chora ao telefone e numa madrugada insone se está ao lado de quem vê abacaxi havaiano na parede da sala.

Teria dificuldade de escolher uma trilha sonora para colocar dentro dessa caixa. É uma área de risco, pois a caixa está sendo preparada para ser aberta por alguém que ouve discos de bandas que nem sei o nome. Ainda assim me arriscaria a gravar um cd com Julia, dos Beatles; a bateria do Monobloco; o tema do Batman; Xica da Silva, na voz do pequeno Andrei; e, pasmem, Light My Fire, The Doors, por causa da chama incessante de uma siderúrgica.

Livros, eu mandaria vários. Todos comprados em sebos: Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Clarice Lispector, Machado de Assis, Rimbaud, Augusto dos Anjos, Leminski... (Por favor, o da Bruna Surfistinha não entra nesta lista!). De repente, copiaria à mão alguns poemas e crônicas que eu mais gostasse. Recortaria frases interessantes que leio por aí e escreveria em bilhetes essas idéias absurdas que às vezes quero comentar, mas que depois acabam se perdendo.

Não me esqueceria das cervejas geladas, do torresmo de Quatis e da pizza amanhecida. Providenciaria ingressos para a próxima Festa Literária Internacional de Paraty, claro, sem passeio de escuna, mas com direito a vaga cativa numa mesa do Bar Coupê. E forjaria um teste vocacional só para alguém se decidir logo a fazer Letras e se assumir de vez um homem de palavras. E que palavras!

Mesmo podendo não agradar, eu mandaria o Manifesto Comunista e uma camisa do Che. E me redimiria, enviando os números dos telefones da Luciana Vedramini, da Jennifer Aniston e de alguma mulher com cabelo vermelho. Se desse, como boa amiga, até colocaria uma delas lá dentro e despacharia por sedex com uma recomendação: "use com moderação".

Na caixa que procuro, eu colocaria tudo que é bom nessa vida e mais um pouco. Inspiração, amigos sempre por perto e amor sem fim. Junto também enviaria uma crônica que prometi, mas não escrevi. É que ela tem que ser bela, simples e especial como quem deve recebê-la. Tem que beirar a perfeição.

Todavia, como ainda não encontrei a caixa que preciso e não quero deixar meu bom e querido amigo-oculto sem presente, resolvi improvisar com uma outra caixa nada original. Inclusive, é bem clichê. Se não gostar, lamento, mas não se faz troca.
Doni, hoje meu coração é seu.

Por Jussara Soares