Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, novembro 03, 2005

O enigma indecifrável

Fui apresentado à dona Morte com três anos de idade. Responsável pelo melhor ovo mexido do planeta, vó Áurea, diabética, sucumbiu ali por março ou abril de 1976. Lembro até hoje da Missa de Sétimo Dia. Mamãe me arrumou direitinho e eu não reclamei daquelas camisas enjoadas, que me apertavam o pescoço, desconfortáveis ao extremo. Com certeza, foi minha primeira decepção com a religião. O padre já anunciava a comunhão, quando eu resolvi perguntar à minha mãe: “Cadê a vovó?”

A idéia de nunca mais ver alguém tão presente na minha vida me soou injusta. Durante alguns meses, um sonho recorrente povoou as minhas noites. Eu e meu pai visitávamos a minha avó em uma espécie de asilo. Chegávamos no horário de visita e vovó aparecia com roupas brancas, de toca, como se trabalhasse em um frigorífico ou coisa do gênero. O local era repleto de vasilhas vermelhas, aqueles recipientes onde se colocavam os litros de leite em um tempo que não existiam embalagens longa vida. Não me perguntem que tipo de simbolismo teria aquele sonho. Na verdade, não deveria ter nenhum. Saudade. Pura e simples. O enigma da morte mexe sempre com a gente. Neste quesito, meio que invejo os kardecistas, sempre prontos a alguma explicação, a alguma leitura. Confesso que sou um católico vacilante. Alterno dias de absoluta fé, com momentos de absoluto ceticismo.

Véspera de Finados, um carro de som anuncia um Halloween em um clube próximo. Esqueço a minha má vontade com esta história de se falar em Dia das Bruxas ao sul do Equador e penso somente na data. Fosse viva e Dinda, minha inesquecível tia avó diria: “Não respeitam mais nada mesmo, nem na véspera de Finados deixam de fazer baile. Será que já não tem bastava carnaval na Quarta-Feira de Cinzas?”.

No passado, dividia as dúvidas a respeito do enigma da morte com o meu pai. As conversas eram marcadas pelo bom humor. “Ruim não deve ser, João Henrique. Ninguém que eu conheça, voltou para reclamar”.

Existiria vida após a morte? Paro para pensar e não chego à uma conclusão. Vou para a cama e me deito. E imagino como seria um encontro com papai na porta do céu, aos moldes do Tião Higino, na chata América. Garanto que não falaríamos de rodeios, touros Bandidos e Miami. Teríamos muito assunto para pôr em dia. Mas um, com certeza, não iria faltar. “Pai, o tal do Petkovic tá jogando uma enormidade”.

Por João Henrique