Vital e seu notebook
A felicidade de Vital não era apenas a de um menino crescido – o que, de fato, todo homem é – que acabara de ganhar um brinquedo novo. Os “presentes” da empresa significavam a valorização do seu trabalho, uma aposta do chefe em sua competência e na importância dos seus projetos para as atividades da organização. Mas o notebook também não era um troféu apenas, por mais que estivesse sendo exibido assim para os companheiros de mesa neste happy hour. Vital via o computador novo como um aliado mais que bem vindo neste momento de sua vida, um aliado em sua luta por mais tempo.
Ele não sabia o que era tempo desde o fim do curso secundário. Vieram logo os estudos estafantes da época do pré-vestibular e depois os anos na faculdade de Administração de Empresas, seguidos pelo MBA nos Estados Unidos. Já eram bem uns dez anos sem lazer, a não ser naquela semana anual de férias que ele tinha conseguido tirar nos últimos dois anos. Vital sentia-se um homem de sorte por mesmo assim ainda ter Ângela do seu lado, e era nela que ele pensava agora.
Ângela trabalhava em uma rádio. Ele a conhecera ainda nos primeiros anos da faculdade – já que a Escola de Comunicação e Artes da USP ficava bem do lado da Faculdade de Economia e Administração – e eram noivos desde então. A relação estava estremecida agora porque depois da última promoção de Vital ele não tinha mais tempo para nada que não fosse relacionado ao seu departamento na empresa. Ela entendia, sabia o quanto a carreira era importante para ele, mas sentia falta e carência maiores do que nunca, e ele percebia.
Mas agora seria diferente, ele pensava. Conectado com sua equipe o dia todo de qualquer lugar e com uma máquina potente como aquela para trabalhar em seus projetos, ele com certeza seria mais produtivo, sem precisar ir tanto até a empresa. O trabalho seria feito em menos tempo, os prazos não seriam tão apertados como vinham sendo, e ele poderia finalmente fazer o que tanto queria: viver. Viver e dedicar mais do seu tempo à sua amada. Ora, ele pensava, para que serve a tecnologia senão para tornar a nossa vida mais prática e para nos dar mais tempo para as coisas realmente importantes? E com um sorriso nos lábios pediu mais uma cerveja e mandou o amigo parar de acessar sites pornográficos em seu laptop novo.
(...)
Alguns meses passados e tudo havia dado errado. Os problemas começaram quando alguns subordinados mais inseguros passaram a procurá-lo o dia todo, todos os dias. Eram sessenta e-mails diários com questões sobre o novo produto e sobre a estratégia de marketing a ser adotada. Como Vital era um perfeccionista e nem podia pensar em algo dando errado, ele passou a ficar o dia todo junto do computador. A primeira briga com Ângela veio quando ela o viu saindo do banheiro com o notebook, mas a gota d’ água mesmo foi quando estavam na suíte de um motel, prestes a terem uma tão aguardada noite de amor, e tiveram que interromper tudo porque o gerente da matriz na Finlândia solicitou uma vídeo-conferência “inadiável” com Vital.
Agora ele estava sozinho em seu quarto, de madrugada, jogando paciência e tentando não pensar em Ângela - que segundo amigos estava de namoro com um escritor. O notebook havia se tornado um aliado em outra tarefa importante: passar algumas horas do dia navegando pelos perfis do ParPerfeito.
Por Marcos Donizetti










