Tema da semana: 'Sinais'

segunda-feira, outubro 31, 2005

Uma Outra Vida

As primeiras luzes da manhã vieram encontrá-lo sentando numa poltrona, no canto do quarto.

Acordara assustado, sem motivo, o coração batendo forte. Não conseguiu mais dormir.

Sentia-se sufocado.

Sentou-se ali e olhou a esposa, dormindo calma e profundamente.

Lembrou-se do dia em que a conhecera, tantos anos atrás. Não tinha sido um bom começo.

Num acidente bobo de trânsito, ela saiu do carro agitada, gesticulando muito e dizendo que ele estava errado.

E ele? Ria da pequena moça, de cabelos cacheados e ruivos que precisava se esticar toda para colocar aquele dedo delicado bem na ponta do seu nariz!

Trocaram telefone e, mesmo sem ter culpa, pagou o conserto do carro da garota. Em troca, convidou-a para sair.

E foi assim, conquistando a pequena aos poucos, vencendo cada barreira, que ele a teve.

Curtos 32 anos juntos. Cheios de amor, completados por discordâncias menores que só agregavam respeito e conhecimento entre eles.

Pensou nos dois filhos.

O mais velho, já formado. Trabalhando numa multinacional. Cargo de responsabilidade, viajando muito e crescendo cada vez mais. Pensou também na futura nora, que tanto lembrava sua esposa. Ele riu intimamente. “Essa vai dar trabalho, também!”

O mais novo, também formado, fazendo especialização num grande hospital no exterior. Quando voltasse, seria um grande médico. Era dedicado, cuidadoso, amoroso com seus pacientes. Preocupava-se demais com o próximo. Esse ainda não tinha ninguém, mas duvidava que demorasse muito a se enroscar.

A esposa se mexeu na cama. E ele a olhou de novo.

Como a amava! Seria doloroso ter de ficar sem ela.

Levantou-se cuidadosamente, aproximou-se da cama e olhou-a com carinho. Pensou em acariciar aqueles cachos que tanto amava, tocar o rosto de pele macia, beijar os lábios quentes, mas teve medo de acordá-la.

Soprou um beijo, simulou um abraço.

Duas lágrimas quentes e solitárias desceram de seus olhos, escorreram pelo rosto e caíram no chão.

Ao erguer a cabeça um pouco mais, viu seu próprio corpo, deitado mansamente ao lado dela.

Inerte. Sem vida.

Não havia nada mais para ele ali.

Olhou mais uma vez para o quarto que guardou tantas coisas boas. Mas dali, só teria lembranças para levar.

Disse mentalmente “Adeus”.

E sem olhar para trás seguiu seu destino. Uma outra vida.

Por Sandra Pontes