Tema da semana: 'Sinais'

domingo, outubro 30, 2005

Tão longe, tão perto

Coisa mais esquisita essas novidades tecnológicas, você fica amigo e tem vontade de dizer que adora mesmo quem você nunca viu. Eu hein*
Chegaremos aos Jetsons? Porque rimos e fizemos piadinhas quando nosso amigo ganhou um celular na época da faculdade, logo ali, uma década atrás. Afinal, onde já se viu um estudante de jornalismo, contra o sistema e tudo o mais, ter um celular, aquele negócio de mauricinhos e patricinhas que ninguém da área de humanas deveria ter? E-mail? Sim, alguém, amigo de alguém, tinha um computador com essa tal de Internet. Diziam que era possível enviar uma mensagem pra uma pessoa em outra cidade e receber a resposta em minutos, na tela do computador. Não dávamos bola pra isso. Nós é que dávamos as cartas. Não as máquinas.

Santa Olivetti! Mas não era mesmo James Craig, em papel offset e policromia, que nos ensinava a diagramar página de jornal e revista no papel quadriculado, régua de paica e calculadora na mão? Corel que nos salve.

Uma vez recebi uma carta com perfume. E ela ficou muito mais bela de se ler. Não há mais o cheiro doce de Luciana, mas suas letrinhas cuidadosamente desenhadas ainda me acompanham.

Hoje, a amiga de Cartas Perto do Coração e Cartas que Não te Escrevi manda um raro e-mail, lá de longe, de terras desconhecidas. E eu, que cheguei a arquivar e-mails, de tão intensos de amizades, dúvidas e sonhos, me dou conta de que não é mais possível guardar tanta informação.

Não é espaço o que falta. Há gigas e gigas no mundo virtual. Arquivos guardados sei lá onde, num espaço que não é palpável e desaparece sem bateria, sem luz elétrica. Todas as cartas de verdade, de papel e tinta que tenho, caberiam, não naquela caixa de sapatos, mas em uma pequena gaveta de bytes, bits, HTMLs e outras coisas mais que não entendo.

Mas o prazer de abrir um e-mail jamais será o mesmo de rasgar o envelope em busca da carta amiga. Ler as letras na tela nunca será comparável ao toque do papel nas mãos – aquele pouco que há de quem o enviou.

E a espera? A espera ansiosa pela resposta. Os dias contados na folhinha e não em palmtops ou celulares que, cada vez mais, nos roubam o tempo. E hoje, os MSNs a nos colocar tão perto, tão ao mesmo tempo, que a gente acaba mesmo achando tempo demais os segundos que o PC velho, superultrapassado do início do ano, leva pra processar a informação. “Processar a informação”. Deus meu, de onde saem essas palavras?

Um dia, eu ainda pequeno, com minha ânsia ancestral de conhecer o mundo, mandei uma carta pra Portugal. Uma garotinha querendo se corresponder com amiguinhos brasileiros através das revistas da Turma da Mônica. Talvez crianças não mandassem cartas pro estrangeiro, porque a moça dos Correios cobrou carta local. No dia seguinte, lá estava o carteiro em casa, pra cobrar a diferença. (Coisa de cidade pequena). Se fosse hoje, a resposta seria “delivery to the following recipients failed”. Nada mais.
Por Paulo Galvez
PS: *Eu também, amiga.