Tema da semana: 'Sinais'

domingo, outubro 02, 2005

Domingo em Goiânia*

Hoje amanheceu um domingo de cheiro úmido de fazenda e pessoas - poucas - lentas nas ruas. Da janela do meu quarto, no 12° andar, observo os meninos jogando futebol e me pergunto por que acordaram tão cedo hoje. Os garotos logo abandonam a quadra e reconheço: eles sempre estiveram ali aos domingos, antes das oito da manhã.
Cansado do sábado e da vida, ontem adormeci antes das sete da noite. Hoje, de pé desde as seis, acordei pra um domingo que não faz parte da minha realidade. Não que eu nunca tenha me levantado bem cedo num dia desses. Mas confesso que, assim, sem ter nada pra fazer a não ser curtir o que sobrou do final de semana, é a primeira vez desde aqueles tempos de menino, quando o futebol ou as pipas nos aguardavam logo no início da manhã.
Vou pra sacada e observo alguns dos 384 apartamentos do condomínio Vila Rica. A dona de casa, ainda de roupa de dormir, fuma o primeiro cigarro. Outra mulher estende roupas em um varal improvisado e pára pra olhar, lá embaixo, o zelador arrastar os carrinhos de supermercado de volta pra portaria. Um homem aparece sem camisa e observa o pátio, sem prestar atenção em nada. Pela fresta da janela vejo as pernas de alguém - será que é uma garota? - sentado no beliche trocando de roupa. Na sacada embaixo da minha o garotinho estende os braços pelas grades e também observa. Agora, duas crianças andam de bicicleta e os meninos do futebol voltaram. O garoto de baixo me faz lembrar, de novo, minha infância e as vezes em que não pude sair pra diversão com os colegas. Fico triste por ele e por mim.
Hoje, no meu domingo solitário e independente, posso sair quando bem entender. Mas não o faço. Se deixar a sacada, vou perder o futebol e as bicicletas. E a vida preguiçosa das pessoas que começa a surgir nos outros apartamentos. Se sair de onde estou, o domingo volta a ser um domingo normal, de feira, supermercado, restaurante e televisão. Não, definitivamente, não posso sair da sacada.
O sol aparece e eu me decepciono. Gosto dos dias nublados e chuvosos. Mas as pessoas, em sua maioria, preferem os dias ensolarados, principalmente nos finais de semana. É pra elas que os dias nos trópicos são feitos. Pro homem que tenta consertar o motor do Fusca. Pra jovem que aparece só de toalha na sacada e pra outra que surge enxugando o rosto. Pro faxineiro recolhendo o lixo do pátio, pras crianças das bicicletas e pros garotos do futebol.
Do meu refúgio, tento encontrar uma maneira de manter o domingo com cheiro úmido de fazenda e gosto de infância que eu não tinha há muito tempo. Mas o sol brilha cada vez mais forte e meu domingo começa a ir embora. Esta manhã não é mais apenas minha. O dia, agora, pertence às pessoas que, como eu, acordam aos domingos com o sol já forte e com ruas em movimento, lento, mas constante. O sol brilha pra vida nesta cidade que é bela. Mas que eu não reconheço.
Por Paulo Galvez
*Publicado originalmente no Terceiro Caderno