Tema da semana: 'Sinais'

segunda-feira, setembro 19, 2005

Um lugar justo

O burocrata me olhou como quem olha um aposentado na boca do caixa e perguntou meu nome.

Respondi.

Ele continuou mirando o palmtop que consultava até que me informou que o meu destino era a 1ª Vala do 2º Portal.

— É lá que os sedutores são açoitados — anunciou, com um sorriso na cara.

Puxei pela memória e fiquei desconfiado de que ele fosse alguns dos maridos ou namorados em que pus chifres na vida. Mas não o identifiquei. Também, foram tantos...

Ele tirou um cartão magnético da gaveta e me entregou.

— Primeira vala do segundo portal, não vá errar o caminho — repetiu, o que me deixou mais curioso do que apreensivo.

— Por que não posso errar? — questionei.

— Porque na 2ª Vala, ficam os aduladores, puxa-sacos como vocês gostam de falar, imersos na merda — esclareceu.

Que arrependimento de não ter lido A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Peguei o meu cartão, satisfeito em levar chicotadas, e segui por um corredor, com várias portas de vidro, todas identificadas.

No caminho, lembrei-me das mulheres que tive em minha cama e das camas das mulheres que tive. Recordei-me das loiras, das falsas loiras, das morenas, das negras, das orientais. Jovens, maduras, lindas, bonitas, feias, inteligentes, burras, mas sempre mulheres. Nem todas me deram. Mas todas foram seduzidas. Todas sonharam comigo uma noite, pelo menos. Todas me desejaram, se dispuseram a me dar. O que eu quisesse.

Logo encontrei o acesso para o meu destino, mas a curiosidade, mais uma vez, falou mais alto e resolvi espiar um pouco. Escolhi aleatoriamente seis portas à frente, para não correr o risco de ficar na merda, já minha vizinha.

Ao abrir a entrada da 7ª Vala, dei de cara com figuras conhecidas e descobri que estava no purgatório dos corruptos. Avistei, logo de cara, um ex-prefeito de São Paulo e seu filho. Bem pertinho dele, um grupo de petistas amigos de longa data. Gente em quem eu acreditava. Ex-vereadores, enxerguei um monte, assim como ex-deputados, ex-senadores, ex-governadores e ex-presidentes. Vi também juízes, médicos, jornalistas, advogados, jogadores de futebol, empresários, donos de jornais, padres, bispos, até um papa. Todos sendo torturados por serpentes. Apenas me chocou constatar que um garotinho, com a sua rosinha na mão, também estava ali. Achei que ele fosse para outro lugar.

Fechei a porta, e voltei para a minha vala rindo baixinho, com o destino dos corruptos.

Mas a minha linha de raciocínio foi interrompida pela passagem, ao meu lado, de uma curvilínea morena, pouco mais de um metro e cinquenta e cinco de altura, cabelos lisos e, o mais importante, bunda arrebitada.

Definitivamente, a bunda é uma invenção do diabo, pensei. Que tentação! Que vontade de tocar, beijar, morder... Apenas as fêmeas desbundadas é que devem ir para o paraíso. Que chato.

— Oi — arrisquei, para cima do pitéu.

Só quando ela se virou para me responder, é que a reconheci. Fora capa da Playboy. Participara de programas de TV. Devia estar ali à procura da vala da vaidade.

— Oi — ela respondeu. — Estou meio perdida aqui dentro, não sei bem para onde vou — me disse.

— Eu te ensino — falei, já tocando a sua mão, com malícia.

— Qual é o seu nome — ela me perguntou, com uma docilidade que beirava a burrice.

Antes de responder, cheguei à conclusão de que, pensando bem, o inferno não é tão injusto assim.

Por Helton Fraga