Tema da semana: 'Sinais'

Terça-feira, Setembro 27, 2005

São, São Paulo, Meu Amor!

"São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor"
- São, São Paulo *

"Quando eu vi
que o Largo dos Aflitos
não era bastante largo
pra caber minha aflição,
eu fui morar na Estação da Luz,
porque estava tudo escuro
dentro do meu coração"
- Augusta, Angélica e Consolação *

* Canções de Tom Zé, pois ninguém retrata São Paulo melhor que este baiano!

Meu perfil do Mimeographo já é claro: "Vive já quase trinta anos de um casamento feliz com a Paulicéia, mas confessa que flerta com qualquer outra cidade do universo onde existam pessoas interessantes, rock 'n' roll e cerveja barata." Amo as cidades, pois para mim são muito mais que aglomerados de pessoas. As cidades têm alma e personalidade próprias, são donas de espírito e temperamento. Nada mais natural - ao menos para minha mente doentia - que eu as veja como mulheres, e tal metáfora explica muito sobre como encaro os lugares que gosto.

Cada nova cidade que visito é como uma amante, um novo amor, e o que se faz com uma nova amante? Exato, assim que a encontramos é hora de nos dedicarmos à deliciosa tarefa de conquistá-la e descobri-la, centímetro por centímetro, como um explorador, sem qualquer pudor - perdão pela rima fácil! Meu maior prazer é conhecer as mulheres (cidades) que passam pela minha vida em corpo e alma.

Já confessei que flerto com muitas cidades, mas realmente vivo um casamento feliz - e fiel - com meu grande amor, com minha maior e melhor amante: São Paulo. Minha amante não tem a beleza estonteante de outras cidades, não desperta paixão e desejo à primeira vista, e acho que nisso está o que ela tem de mais belo, pois São Paulo desafia. Ela diz "mergulhe em mim para descobrir o que posso te oferecer", e tais palavras são música para os ouvidos de um conquistador inquieto. Como escrevi um dia, é preciso adentrar São Paulo sem medo, em suas entranhas, para perceber o quanto ela apaixona e vicia. E ela é temperamental, uma mutante diferente a cada dia, a cada ano, e não imaginam quanta paz e beleza emana deste caos.

Minha amante tem um "horrível sotaque"? Impossível, porque São Paulo fala e é dona de todos os sotaques. Se um dia você tiver a sorte de ter minha amada sussurrando juras de amor em seu ouvido, verá que o doce sotaque paulistano é na verdade italiano, alemão, árabe, japonês, chinês, gaúcho e nordestino, e que temos orgulho disso.

Tumulo do samba? Pode ser, pois o samba que chegou aqui morreu para renascer mais "nosso", único. Nosso "samba" renascido é carcamano, você talvez precise de um estágio nos botecos da Mooca, fazendo "aquecimento" para as partidas do Juventus, para poder entender nosso "samba". Mas, se for esperto, saberá do que estou falando assim que puser os olhos no rebolado de uma linda paulistana na quadra da Camisa Verde.

São Paulo também é do Rock. As paredes de pedra, a fuligem, as metalúrgicas... Que cenário tão perfeito para que tantos jovens pegassem suas guitarras para falar de amores desfeitos e lutar contra o "sistema". Você já ouviu Os Mutantes, Ira! e o Cólera? Ouça.

São Paulo é inquieta, não pára e não dorme nunca. E está sempre pronta para ser domada em sua loucura ou para nos acompanhar nos mais absurdos devaneios. Não se deixe enganar pela garoa fria, pois São Paulo é quente. Ela tem o fogo das paixões, amores e ódios que desperta, e com ele nos aquece sempre que nos dá abrigo. São Paulo me pertence e eu, feliz, pertenço a ela...

Por Marcos Donizetti