Tema da semana: 'Sinais'

segunda-feira, setembro 26, 2005

Sempre, em algum lugar

Mais do que arquitetura, urbanismo e beleza de cidades, estados, países, continentes ou planetas, são os instantes que tornam um determinado local inesquecível, presente para sempre na memória e no coração. Sou louco para pôr os pés em Barcelona, na Espanha, mas, por enquanto, inexiste qualquer ligação entre mim e aquela cidade da Catalunha, fora o desejo de conhecê-la. Ao mesmo tempo, a pequenina Vassouras, aqui no Sul Fluminense, cujo cartão-postal se resume às fazendas do período da riqueza do café e à imponente Praça Barão de Campo Belo, é muito mais importante porque foi lá que vivi momentos como o nascimento de Henrique e Ana Carolina. Para mim, não há nada mais marcante do que os meus filhos. Que me perdoe Antoni Gaudí, mas eu enxergo Vassouras sob a ótica das minhas obras de arte.

Sim, sou um homem de gostos simples, pequenas ambições, sonhos palpáveis, que nunca acreditou que pudesse sair do Brasil. Filho de um empregado de construtora de rodovias, rodei boa parte do país, o que me deu o privilégio de conhecer as regiões Sul, Sudeste e Norte, mas me cassou o direito de plantar raízes numa cidade qualquer — nem mesmo na minha Vitória (ES) natal — e de formar a turma de amigos para sempre. A vantagem é que fui obrigado a conquistar amigos eternos por onde passei. Isso me fez saber dar-lhes valor.

Como “enxergo” com o coração, posso pontuar outras cidades que conheci e estou sempre visitando — mesmo que com a memória. Miguel Pereira, na região Sul do Estado do Rio, é uma manchinha no mapa, mas foi lá que dei o meu primeiro beijo. Tinha 13 anos. Ela, 20. E me ensinou, mais do que a beijar, a usar os lábios. Cochichou em meus ouvidos o que uma mulher gosta num homem, independente da idade. Nunca mais esqueci.

Guarapari, no Espírito Santo, foi palco da descoberta da beleza e das ameaças do mar. Do prazer do sol queimando a pele. Do beijo dentro d'água, com um corpo roçando no outro. Das fotos nas pedras da Praia das Castanheiras e da privacidade nas Três Praias. Sinto saudades de lá.

Em Registro, no Vale do Ribeira paulista, conheci os prazeres adolescentes da noite, mas aprendi também sobre os perigos dela. E me apaixonei pela primeira vez. E sofri pela primeira vez. Descobri a importância da amizade verdadeira. Mês que vem, aqueles grande amigos vão se reunir pela primeira vez, depois de 23 anos. Não poderei ir. Casamento de um grande amigo de agora.

Gosto das metrópoles. O Rio, então... praias, jardins, parques. O Jornal do Brasil. Os cariocas. As cariocas. São Paulo não pode faltar. O Itaim-Bibi. Uma noite de primavera. É impossível se lembrar do trânsito quando você sabe que amigos como Gustavo Lima e Marcos Donizetti moram lá. Pessoas que fazem qualquer lugar melhor.

E a atraente Curitiba? Não bastasse tudo de bom que tem, ainda ganhou o reforço de Sandro Rego, Deise e Lara. Alguns dos mais recentes dias felizes da minha vida passei lá. Assim como em Gonçalves, minúsculo município no Sul de Minas. Não tem quase nada, além de ar puro, verde à vontade, natureza exuberante, cachoeiras, Bicho do Mato e paz.

Não poderia faltar Volta Redonda. Muito mais do que a Cidade do Aço. Pouco me importa se há uma usina encravada no meio dela. Eu a vejo e sinto pelo paralelo do amor . É a cidade mais linda do mundo, para mim. A volta da busca da felicidade. Sempre a minha cidade preferida. Em qualquer lugar.

Por Helton Fraga