Tema da semana: 'Sinais'

sexta-feira, setembro 16, 2005

Ernestoddy & Desirré

Eles se conheceram em uma festa rave. Tinha de tudo. Adolescentes, adolescentes tatuados, piercings pra todo lado, gente mais velha, surfistas marombados, patricinhas, tiozinhos e tiazinhas, malucos de várias partes do Rio de Janeiro. Tinha gente normal também. Gente que acorda cedo, trabalha e tem responsabilidades, como Paulo Ernesto e Desirré Antunes, filhos de uma geração de pais abastados que perderam quase tudo apostando em governos democratas e empreendimentos imobiliários.

Ernestoddy, como era conhecido por sua galera, trabalhava como advogado em um escritório conceituado na Glória. Lutava para um dia conseguir chegar entre os melhores e se tornar um dos sócios da empresa. Não era muito de sair, teve algumas namoradas, mas os términos de namoro sempre deixavam marcas em seu coração. Amava demais e nem sempre conseguia um amor recíproco. Ernestoddy ganhou esse apelido por sempre estar cuidando do corpo, malhando e tomando suas “bombas” diárias. Era forte e um pouco arrogante, se é que se pode medir arrogância, contudo Ernestoddy era um cara maneiro. Desirré Antunes, era uma louquinha da cabeça. Muito bonita, cabelos negros compridos, um corpo escultural, adorava dançar e não seguia muito as regras alimentares. Suas amigas ficavam impressionadas com sua silhueta perfeita contrastando com sua inigualável vontade de se saciar com cheeseburgers e derivados nos fins de noite. Trabalhava em uma loja de roupas no Barra Shopping e sempre estava nas baladas. Apesar de já ter passado na mão de muita gente, Desirré procurava uma pessoa legal para manter um relacionamento ímpar, inédito, uma coisa nova.

Ernestoddy tinha um amigo que era primo de uma prima que tinha uns rolos com um ex da Desirré. Desirré estava meio chapada na festa quando foi apresentada ao Ernestoddy. O primeiro passo foi na pista de dança. Uma música meio sem sentido, sem melodia, apenas um bate estaca incessante. Desirré dançava feito uma louca com um copo de uísque na mão misturado com uma bebida estimulante e o Ernestoddy bebia vodca com fanta laranja. Eles tentaram se comunicar, mas o som de furar os tímpanos não permitia a aproximação dos dois pombinhos alterados com as asinhas chumbadas de tanto álcool. Eles então saíram para um bate papo. Ernestoddy dizia que um dia queria fazer uma viagem para a Austrália e conhecer um verdadeiro caçador de crocodilos. Desirré ficou delirando e contou que havia feito um intercâmbio cultural para a Austrália anos antes e havia morado na casa de um caçador de crocodilos, tendo inclusive saído em algumas ocasiões para uma caçada com o pai australiano. Ernestoddy não acreditava no que estava ouvindo. Em seguida a louquinha disse que seu sonho desde criança era fazer uma viagem para a ilha de Fernando de Noronha. Ernestoddy não só conhecia Fernando de Noronha, como havia passado toda a sua infância na ilha em casa de parentes, um dos projetos imobiliários de sua família que deu certo. E por aí as coisas foram se encaminhando. A cada palavra do casal, as coincidências e a paixão afloravam pelos poros dos descolados. “Inacreditável! Que isso?”, pensava Ernestoddy enquanto contemplava aquela deusa na sua frente.

Ficaram na festa. Beijos daqui, mão boba permitida dali e assim começou o romance. Café com adoçante? O meu também. Filmes de terror? Adoro meu amor. Praia de Ipanema? A minha preferida. Pizza de calabresa? Nossa! Como você adivinhou? Sorvete de passas ao rum com cobertura de caramelo? Meu Deus, você não existe. A relação dos dois era uma coisa simétrica. Dois em um. Perfeitos.

Seis meses se passaram e estavam quase casados quando Ernestoddy recebeu a visita de seus parentes que moravam em Fernando de Noronha. Desirré preparou um jantar maravilhoso. Casquinha de siri de entrada, espaguete com frutos do mar, camarões fritos ao alho e óleo e bananas flambadas de sobremesa. Tudo escolhido pelos dois. Era o jantar perfeito. Eis que chegam os tios de Paulo Ernesto, Ernestoddy sumiu do pedaço, e se apresentaram de forma formal sem muitos exageros nos cumprimentos. Papo vai, papo vem e coisas estranhas começam a acontecer. Na tentativa de conhecer um pouco mais sobre o passado de Ernestoddy, Desirré começa uma série de perguntas mais íntimas aos tios do namorado. Logo de cara, a tia diz que ele apenas havia passado alguns dias em Fernando de Noronha com eles. Eles moravam em Natal e viajaram à Ilha para descansar em uma pousada durante uma semana. Ernestinho, como a tia ainda o chamava, odiou o lugar e passava mal com frutos do mar. Desirré ficou passada, mas como aquele episódio acontecera quando ele ainda era pequeno, deixou passar mas não engolia a mentira sobre Ernesto ter dito sobre sua infância na ilha. Como pôde mentir sobre isso? Ficou fora de si por uns instantes e fuzilou o mané com um olhar perfurante. Os tios de Ernestoddy tinham alergia a frutos do mar, fato desconhecido pelo rapaz, o que deixou Desirré mais fula ainda.

Depois da encomenda de uma pizza e o fim do desastroso jantar, o tio de Ernesto comentou sobre uma viagem feita pelos dois à Austrália quando o sobrinho tinha 25 anos. Contou sobre a aventura dos dois em um safári real feito por caçadores profissionais do qual participaram e Ernesto tinha adorado a caça aos mais ferozes crocodilos do país. O tio o chamava de Ernesto Dundee por causa do filme sobre um caipira australiano perdido em Nova Iorque. Ernesto não sabia onde enfiar a cara. Todas as suas mentiras saíram da escuridão. Desirré, aos prantos, correu para a cozinha. Ernestoddy saiu em disparada atrás de sua amada largando os tios na sala.

- “Meu amor, me desculpe. Estava tão carente e te achei tão especialmente incrível que venho mentindo sobre várias coisas pra ter você comigo. Odeio pizza de calabresa, minha preferida é de aliche; odeio sorvete de passas ao rum com cobertura de caramelo, gosto mesmo é de napolitano com cobertura de limão e uva, e sim, eu odeio Fernando de Noronha, praia, areia e tudo o que se refere aos frutos do mar, mas eu te amo.”, disse Ernestoddy, atordoado com a idéia de perder sua amada.

- Eu sei meu amor. Na verdade eu sei desde o princípio. Escutei seus vômitos nas madrugadas após rodízios de pizza de calabresa, vi sua cara de nojo toda vez que saíamos para comer frutos do mar, sei que você odeia as baladas, gente, bêbados e até filmes de terror. Passei por cima disso tudo para ficar com você, meu amor. Mas tem uma coisa que também devo te dizer:

-Fala meu amor, nada me afetará.

-Ernestoddy, meu nome é Luciano, fiz a troca de sexo em Belford Roxo, nunca fui para a Austrália, ou melhor, nem sei onde fica isso, tomo suas bombas escondido e adoro seus músculos.

- Eu sei Desirré. Desde o início também. Mas o que me fascina em você é essa sua arte de mentir, sua força para carregar as compras do mercado e seu “jeitinho” masculino de resolver nossas brigas.

Ernestoddy e Desirré Luciano casaram-se meses depois. Não comem mais pizzas, sorvetes ou frutos do mar. Amam ficar à toa em casa assistindo futebol na TV, torcendo pelo Botafogo, comendo cheeseburgers e bebendo suco de groselha.

Por Wallace Feitosa