Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, agosto 25, 2005

Uma vingança de merda

Emerson era um cara decidido, forte. A vida não lhe dera chance para vacilações. Órfão de pai desde os oito anos de idade, começou cedo a lutar pela sobrevivência na periferia da pequena cidade em que morava com a mãe. Dona Enedina era guerreira, mas, vez por outra, vencida pela saúde frágil. A Emerson cabia zelar pela pequena produção agrícola permitida pelo terreno exíguo que o pai conseguira deixar de herança. O talento para mexer com a terra e cuidar dos animais – meia dúzia de galinhas e outro tanto de leitões que ajudavam na renda familiar --, herdara de José, o Zé Paraíba – por mais que José, o pai, tivesse nascido no agreste pernambucano.

Emerson foi criado na Igreja. Desde cedo recebeu a influência de padres progressistas. Era na comunidade católica que passava os raros momentos em que não estava plantando, colhendo ou vendendo sua produção na feirinha da cidade. É lá que conhece Lúcia Helena. Ou só Lúcia – “este negócio de dois nomes é muito brega”, ela sempre dizia. Emerson e Lúcia viviam em mundos distintos. Ele, na periferia. Ela levando uma vida de classe média no centro da cidadezinha. Lucia vivia implicando com o “agitadorzinho da roça”. Emerson a tratava como a “riquinha fútil da Matriz”.

Os dois cresceram com suas diferenças. Enquanto Lúcia terminara o Normal – a cidade não oferecia alternativa às meninas de sua idade. Emerson, a esta altura, ajudava a fundar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município. A implicância da adolescência se transformara em atração. Aos mais íntimos, Emerson admitia que a burguesinha lhe tirava o fôlego. Lúcia não admitia nem às antigas colegas de colégio, mas era evidente o desejo nos olhares da moça rica ao agora líder sindical. Os dois se encontravam nas missas de domingo na Igreja Matriz. Durante muito tempo, Emerson deixou de freqüentar a Matriz. “Lá é missa de rico. Aquele monte de dondoca desfilando roupas novas. O pessoal da periferia nem chega perto do altar. Já viu algum pretinho de sacristão na Matriz?”, indagava a quem o questionava a respeito da implicância com a área mais abastada da cidade.

Se Emerson voltou à Matriz, Lúcia inventava desculpas para visitar a zona rural da cidade. “Trabalho de faculdade, preciso pesquisar como vive esta gente”. O certo é que em pouco tempo passaram a freqüentar as mesmas camas. Tudo começou quando, simulando uma carona, Lúcia levou Emerson a um motel da região. Era a primeira vez que ele entrava em um. Meio atordoado, surpreso, Emerson não vacilou. Podia se sentir tímido com a situação, mas sabia ser homem. E foi.

A “carona” se repetiu dezenas, centenas de vezes. Na volta à cidade, era como se Lúcia se esquecesse de tudo que acontecera. Não que ela não gostasse dos encontros – cada vez era mais dependente destes momentos. Contava os minutos para reencontrar Emerson. Mas não dava o braço a torcer. Nenhum sinal de afeto, nenhuma palavra carinhosa. Encontros? Sempre escondidos, longe dos olhos da cidade. A situação se tornara insustentável para o rapaz, que se sentia humilhado. O homem que batia de frente com a oligarquia regional, que enfrentava o conservadorismo cada vez maior dentro da Igreja, que encarava patrões e prefeitos, era um frágil menino nas mãos de Lúcia. Prometia, mas não conseguia evitar novos encontros, novas idas ao motel, novas noites de prazer.

Um dia, cansado de tanta humilhação, deixou a luta, trocou a roça pela cidade grande. Trabalhou como servente de pedreiro, trocador de ônibus, mas juntou dinheiro e estudou. Terminou o segundo grau e se formou em Engenharia Agrônoma. Se o lado profissional se acertara, nunca mais o afetivo se ajeitou. Era como se carregasse na alma os traumas da juventude na terra natal. Lúcia Helena não lhe saía da cabeça.
De volta à cidadezinha, foi tocar a profissão. Em pouco tempo era reconhecido como o melhor engenheiro agrônomo da região. Não chegara a enriquecer, mas recebia o suficiente para dar conforto à dona Enedina e se permitir pequenos luxos, como o carro semi-novo que comprara.

Lúcia sabia da volta de Emerson à cidade e andava à cata de um encontro. Não seria difícil. Na festa dos produtores, aconteceu. O convite partiu dela. Ele aceitou. Mas exigiu que fossem no carro dele. “As oito eu te pego, na pracinha”. Bem sucedido, de carro novo, Emerson já não era motivo de vergonha. Ela aceita. Já no quarto, ela nota um jeito diferente nele. Menos romântico, com uma pegada mais forte. Nenhuma palavra de carinho. Pelo contrário, Emerson a subjugava. Ela não falava nada. Mas gostava. Puxões de cabelo, tapas na bunda. “O engenheiro me saiu mais grosso que o peão”, pensava Lucia.

Ele a empurra até o alto da cama, com força e grosseria. Coloca-se por cima, de joelhos, pressentindo que o momento sublime da vingança se aproximava. Ela se ajeita, pensando que entendeu o porquê daquele posicionamento. “Ele pensa que não, mas eu adoro”, raciocina. Antes que pudesse entrar em ação, ele se adianta e um barulho estranho a assusta. Aliado a feijoada do almoço, o laxante faz efeito e o produto desce, grosso, forte, quente, explodindo no belo rosto de Lùcia.

Por um segundo, ele se arrepende do que fez. “Como posso ter ido tão longe?” Estranhamente ela não se mexe. E aguarda o final para sentenciar. “Eu te amo, Emerson”.

Por João Henrique