Tema da semana: 'Sinais'

segunda-feira, agosto 08, 2005

Uma lição


“Acorda, que está começando”. Assim minha irmã Valéria me despertou numa noite de 1981, no sofá de couro marrom que se destacava na sala de estar da bela casa em que morávamos, em Registro, no Vale do Ribeira, no Estado de São Paulo. Cansado das inúmeras partidas de futebol disputadas durante o dia — sempre como goleiro, sempre sonhando em algum dia vestir a camisa 1 do Flamengo, mais precisamente a amarela de Raul —, eu esfreguei os olhos e tentei prestar atenção na atração daquele sábado à noite na TV Globo. A abertura magnífica, em que os créditos são precedidos pelo violento som provocado pelo choque das letras da máquina de escrever no papel em branco, bastou para me despertar e, mais do que isso, me influenciar para sempre. Estava começando Todos os homens do presidente (All the president's men), de Allan Pakula. Eu não sabia, mas estava nascendo em mim a vontade de ser repórter.

O premiado filme, com Dustin Hoffman e Robert Redford nos papéis principais, é a versão cinematográfica do livro homônimo escrito pelos jornalistas Carl Bernestein e Bob Woodward, autores das reportagens do jornal Washington Post, no início dos anos 70, sobre o escândalo conhecido como Watergate. A investigação dos jornalistas desvendou um esquema de corrupção, que mesclava espionagem na sede do Partido Democrata, desvio de dinheiro e caixa 2 durante a campanha de reeleição do então presidente Richard Nixon, em 1972. As reportagens provaram o envolvimento de colaboradores diretos do presidente com os crimes e mostraram que, de alguma forma, Nixon sabia do que acontecia. Para não enfrentar um processo de impeachment, o presidente dos Estados Unidos renunciou em 8 de agosto de 1974. Exatamente há 31 anos.

Enquanto assistia àquela história inacreditável, o sonho de ser goleiro do Flamengo foi perdendo espaço para a vontade de buscar a notícia — principalmente aquela que todos querem esconder. Ver as peripécias de Woodward e Bernestein em busca da informação correta e verdadeira, acendeu em mim a chama do jornalismo. Principalmente do jornalismo investigativo e ético.

Foi no filme de Pakula que eu pude compreender como deve ser a difícil relação entre repórter e fonte, tão bem exemplificada na lenda do Garganta Profunda, o inconfidente conhecedor dos bastidores do governo Nixon, que orientava Woodward e Bernestein na apuração, cuja identidade nunca foi revelada pelos jornalistas e só foi conhecida há dois meses — depois de mais de 30 anos de mistério —, quando Mark Felt, ex-vice-diretor do FBI, assumiu para o mundo que era a fonte secreta. Quem assistiu ao filme ou leu o livro (publicado no Brasil pela extinta Francisco Alves Editora), se lembra da orientação que ele dava a Woodward quando o repórter se via perdido no meio daquele labirinto de suspeitas e indagações: “Siga o dinheiro”, apontava o Garganta Profunda. Em outras palavras: “Mire a Casa Branca”.

Ao final do filme, a decisão estava tomada: se não conseguisse virar o dono da camisa 1 do Flamengo, eu iria ser repórter investigativo e ético. Cumpri a promessa.

Por Helton Fraga