Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, agosto 18, 2005

Uma crônica para Jô

Como nossa memória vira e mexe nos trai... E agora? Qual terá sido o meu primeiro amor? Dá até uma doce inveja de Donizetti, o aloprado, e Jussara, a beijoqueira, que lembram bem de seus primeiros amores. Não estaria mentindo se dissesse que o Fluminense foi o meu primeiro amor. Mas assunto recorrente não vale. Recordo-me então de Isabel, minha colega de turma da 1ª série. Era sinônimo de beleza para um João Henrique tímido, que contava com um só aliado no seu jogo de sedução. O aliado era um inocente apontador de ferro, maravilha tecnológica em 1979. Isabel só dirigia alguma atenção a mim quando precisava fazer ponta no lápis. Eram momentos raros. E sublimes. Lembro que fazia de tudo para prolongar os segundos em que sua mão tocava a minha para pegar o meu cúmplice, que contava, inclusive, com o inovador design que proporcionava duas entradas para lápis. Embora não conheça ninguém que apontasse dois lápis ao mesmo tempo, devo admitir que o troço era sucesso absoluto.

Fora os empréstimos do apontador moderno, são poucas as lembranças de Isabel. Lembro de seu cabelo esvoaçando ao vento, em alguma excursão do colégio. O fundo musical, Rita Lee cantando “meu bem, você me dá água na boca”, eu não sei se tocava no momento (pouco provável), ou se fiz esta colagem na minha memória.

Mais lembranças eu guardo de Mônica, uma morena “mignon” que morava no bairro onde eu fui criado, ou Josuely, uma carioca com tios e avó na minha Barra do Piraí natal. Mônica era vizinha, irmã de um amigo, estudava no mesmo colégio. Estava sempre por perto. Mas devo admitir que nunca brinquei de salada mista com ela. Aliás, nunca fui dos mais espertos. As saladas mistas que marcaram a minha infância foram quase sempre com a mesma menina, mais fruto da esperteza dela do que da minha. Com Mônica, eu me colocava como protetor, sempre pronto a ajudá-la e defendê-la. Nada demais, é claro. Lembro que dei a ela um bloco de anotações, extraído do talão de pedidos de meu pai, que era vendedor de produtos farmacêuticos. Papai tirava o nome da firma, o CGC e grampeava as folhas. O bloco, personalizado, fazia sucesso com a gurizada. A produção, no entanto, era limitada. Lembro dos inúmeros pedidos certa vez, quando a produção estava ainda mais reduzida. Neguei todos os pedidos – inclusive os dos meus irmãos – e dei o bloco a ela – que nem pedira. Foi o suficiente para um grito ecoar. “Ele tá gostando dela”. Me senti delatado. Mas no fundo, orgulhoso. Era como se estivesse dando um presente para a minha primeira namorada. Na verdade, não chegamos nem perto disso.

Josuely era um barato. Garota rara mesmo. Se interessava até pelos meus assuntos. Discutíamos futebol. Ela era rubro-negra, embevecida com Andrade, Adílio, Zico e cia. Eu, um tricolor que não admitia o grande time do rival. Mesmo assim, não brigávamos. Eu brigava com o bairro inteiro por causa de futebol. Menos com aquela carioca da Ilha do Governador, neta da dona Maria da rua de cima. Brincávamos de jogo de tampinhas e, agora, penso se ela, no fundo, apenas aturava este mala aqui. Não foram poucas as vezes em que a submeti a audições, na velha vitrola dos Barbosa, do LP com os gols do Fluminense na conquista do Campeonato Estadual de 1980. Na época, ela parecia interessada. Hoje tenho dúvidas, embora me recorde dela participando de uma conversa sobre os estilos dos locutores de sucesso no rádio carioca da época. E a cada visita a sua avó, lá estava Jô a nos visitar. Sempre agradável, sempre sorridente.

Nesta época, morava em uma casa que ficava nos fundos do bar que servia de ponto de encontro para os moradores do bairro. E foi lá, comprando uma bala com Jô, que ouvi o comentário de Neném, dono do bar e ele mesmo um adversário nas intermináveis discussões futebolísticas, apesar da diferença de idade: “E aí, Tricolor. Tá namorando, hein? Bonitinha”. Não lembro se resmunguei, mas recordo com clareza que, no fundo, fiquei contente. Jô não desmentiu o intrometido. E ainda sorriu.

Mudei de Barra e nunca mais a vi. Há cinco, seis anos, mamãe voltou de lá com a notícia: Jô morrera, vítima de um câncer. Chorei de saudades. E foi impossível não recordar Renato Russo. “É tão estranho, os bons morrem antes - assim parece ser, quando me lembro de você...”

Por João Henrique