Tema da semana: 'Sinais'

quarta-feira, agosto 24, 2005

Meu vômito, teu alimento

Prepara-te, pois hei de te servir um banquete. Especialíssimo. Ajeita-te à mesa que já trago o teu alimento. Antes, porém, sinta o cheiro de azedo que toma o ambiente. Ele provocará tua fome, enquanto minha ânsia revira no estômago a tua comida. Não te preocupe, ela sairá ao ponto: nem fria, nem quente. Perfeita, morna e em jato, para teu deleite completo.

Se já te contentas com minhas migalhas, hás agora de te fartar como nunca fizera. E apesar da tua fome, não engolirás inteiro como um glutão desesperado, um cão faminto ou urubu que devora a carniça. Não deixarei. Porque teu apetite é do meu vômito - e ele é melhor que isso. Deve ser saboreado. Vomitar palavras não é, como disseste, o que faço? Pois então, hoje ele é teu manjar.

Controle tua avidez por um momento. Tua fome é resultado da tua incapacidade de sentir, pensar, regurgitar o que não lhe cai bem, o que não lhe é palatável. Porque aceitas tudo como um grande estômago de avestruz. A vida lhe desce a seco goela abaixo e nem assim és capaz de esboçar uma reação.

No máximo, o que fazes é arrotar frases feitas e idéias prontas. Porque preferes te entupir de digestivos a ter que encarar o que teu corpo pode expelir sem pudor para aliviar tua alma sempre empanturrada. Não queres sentir a dor de expulsar o que te faz mal.

Se teu corpo já não rejeita nada, experimente, ao menos uma vez, esticar a língua para fora e enfiar o dedo na garganta. Provoque-se como quem tem bulimia. Feche os olhos e tente. E não desista ao primeiro sinal de náusea. Vá até o fim. Vomite o que não queres, mas evite ser um tolo ruminante. Não vás mastigar e engolir novamente o vômito que vem à tua boca. Porque é preciso te livrar das bobagens, absurdos e imposições que comes com farinha.

Tua comida está saindo. Pegue, elegantemente, a colher de sopa, coloque o guardanapo no colo, que o teu alimento já vem. Pronto. Estou aliviada e teu deleite está prestes a começar. Saboreie cada partícula com gosto do que penso. Sinta, aos poucos, a acidez do meu vômito. Deixe tuas papilas gustativas percebê-lo ora doce, ora amargo, ora azedo até escorrer pelo teu esôfago.

Isso. Agora, olhe bem esse líquido pastoso cheio de pedaços coloridos, de todos os tamanhos e formas, essa miscelânea visceral. Reconhece algo? É mesmo tudo o que eu não quis, mas é também o que te sustenta. Meu vômito, teu alimento.

Ah, também tem suco biliar para acompanhar, queres?

Por Jussara Soares